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Lata de Conversas

Lata de Conversas

06
Set19

Um género, vários estilos

Paulo L

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PL

 

Começaram as férias e, com elas, um velho hábito há poucos anos interrompido, ler um livro policial. Desde muito novo, talvez para descanso da mente ocupada pelo ano incessante estudo das matérias obrigatórias, mal entrava em férias alterava as minhas escolhas literárias para romances de cariz policial. A colecção vampiro e a vampiro gigante, entre outras, as colectâneas da Christie, Schandler, Conan Doyle, Simenon, foram-se esgotando avidamente. Durante os outros 9 meses, sim porque na altura as férias eram de 3 meses, os outros géneros literários tinham a primazia. Este ano, o não muito bom tempo dos primeiros dias de férias levou-me a pegar num volumoso romance policial, que subtilmente tinha sugerido que mo oferecessem aquando do meu aniversário, e que apesar de já ter sido publicado em Março de 2018, mantinha o interesse em lê-lo. Era a altura ideal.

O desaparecimento de Stephanie Mailerapesar de usar a estrutura clássica do romance policial analítico, ocupa-se da resolução de duas situações distintas, em tempos diferentes e em tudo relacionadas. À semelhança do que Dicker já nos tinha habituado, a história desenvolve-se a um ritmo acelerado onde os novos elementos são sucessivamente introduzidos levando a sucessivas modificações da linha de pensamento do leitor. Uma das características do leitor de policiais é ser ele próprio um detective. Todos queremos descobrir o autor dos crimes antes do herói do livro. A narrativa está muito bem estruturada, com as novas informações a serem dadas nas alturas certas, não para auxiliar a descoberta da verdade, mas para complicar o raciocínio e que, mais do que o verdadeiro rigor literário, tornam a leitura imparável. As folhas esgotam-se rapidamente e a vontade de continuar é óbvia.  O final traz a habitual surpresa. O leitor mais perspicaz pode antever o desfecho por alguns pormenores, mas de tão subtis e no conjunto das pistas que vão surgindo, não passam de mais uma mera hipótese. Muito recomendável este livro, de fácil leitura e que, como me levou metade do tempo do que esperava a lê-lo, me permitiu pegar num segundo.

Optei por um livro que me surgiu por acaso numa das minhas idas à habitual livraria onde vou desgraçando o meu parco salário mensal. Numa pilha de livros recentes olhei para um Martim Amis. Como há alguns anos tinha tido uma um sentimento estranho com London fields, decidi uma nova incursão no autor através de O comboio da noite. Também um policial, mas neste a história não se repete. Se a estrutura se mantém a do policial analítico, o devaneio psicológico toma a dianteira tanto numa perspectiva heteróloga em relação à vitima como numa perspectiva homóloga relativamente à própria detective. Mais do que uma procura externa da verdade factual há uma procura interna do eu, referindo-se este eu tanto à vitima como à detective. Há uma mistura de sentimentos e reflexões. Uma caça às bruxas. Um exorcizar do passado. Um livro duro de ler, com um componente psicológico marcado muito associado à complexidade interior das personagens.

Estes dois livros chegam-nos de forma distinta. Stephanie Mailer pela clareza narrativa e pelas sucessivas introduções de elementos confundidores. Jennifer Rockwell e Mike Hoolihan pelos sentidos, pelo perceber, como é dito, das essências, dos aromas, das texturas que vamos captando com a leitura.

Não há duas sem três, como se soe dizer. E o três é o livro que ainda não terminei. Cristina Drios escreveu Anunciação. Uns crimes que precisam de ser resolvidos, mas a história essencial é a história de Michelangelo Merisi. Muito descritivo principalmente os flashbacks da história de Caravaggio. A alusão às pinturas e a sua contextualização é feita duma forma muito natural. A descrição simples e concisa, embora não descurando a complexidade da pintura em si, permite facilmente identificar o quadro em questão. O passado e o presente vão-se juntar algures e é aí onde eu estou a chegar.

Sem dúvida que são três livros a ter em conta para umas quaisquer férias ou para um qualquer período de trabalho porque ler repousa e bons livros repousam ainda mais.

É verão. Que tal um Alvarinho bem fresquinho ou, porque não, uma cerveja gelada.

 

 

 

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