Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Lata de Conversas

Lata de Conversas

06
Mai17

Mal Nascer

Paulo L

É numa linguagem bastante cuidada que este fabuloso romance Mal Nascer está escrito, descrevendo o retorno à terra natal de um jovem, agora médico, e que por um infortúnio do destino, se viu obrigado a abandonar o lar. O seu regresso não é por acaso. Se por um lado tem que fugir à perseguição dos Miguelistas em Lisboa, por outro lado vê neste regresso a possibilidade de se vingar de quem lhe quartou a infância. Uma história passada no século XIX, num período de guerras entre liberais e absolutistas, e contada alternando dois períodos temporalmente diferentes. A infância do protagonista e a sua idade adulta. Com uma linguagem muito peculiar, o uso magistral duma construção frásica própria e com um vocabulário expressivo e francamente adequado à época, associado a uma enorme clareza do discurso, torna-se num romance que se lê num só fôlego, não obstante tratar-se duma história realística, infeliz, onde todos os pontos potencialmente bons acabam por terminal quase sempre da pior forma. Não deixa passar ao lado temas importantes, que se mantêm atuais, como o trabalho infantil, a subjugação das mulheres à supremacia masculina, a violência doméstica e o domínio da riqueza como um dos valores mais importantes da sociedade de então. Este tipo de linguagem encontramos também noutros romances de Carlos Campaniço, o que torna este autor o nome a reter. De leitura agradável varia os seus romances entre este muito realista Mal Nascer, até ao interessante e jocoso As viúvas de Dom Rufia, passando pelo realismo fantástico de Os demónios de Álvaro Cobra. Já que falei n’ As viúvas de Dom Rufia, pessoalmente ter-lhe-ía atribuído um título diferente. Se bem que é um livro menos pretensioso, com um objectivo mais lúdico, com uma narrativa muito agradável e de muito fácil leitura. Um livro que aconselharia para ler em férias na praia ou para descontrair em períodos de maior cansaço e pressão intelectual. Um livro interessante também para quem se quiser iniciar nestas lides literárias ou para transição da literatura juvenil. É um livro que dispõe bem e que mostra mais uma interessante faceta de Carlos Campaniço.

Eu leria bem Mal Nascer ao som de Misha Alperin e At home.

05
Mai17

Romantismo bacoco

Paulo L

Quando dissecamos um poema, três situações ocorrem. Interpretamos da mesma forma que o autor; interpretamos duma forma completamente diferente da do autor; ou dizemos que é passível de diversas interpretações. Quando escrevemos um poema, as mesmas três situações podem ocorrer. Ou o leitor interpreta aquilo que quisemos transmitir; ou interpreta uma coisa que nunca quisemos dizer; ou permitimos que tenha várias interpretações. Enquanto autor o que é que eu quero? Transmitir uma ideia, um pensamento, uma sensação? Deixar ao leitor o arbítrio da interpretação? Ou escrever qualquer coisa de forma a que cada um interprete como quiser? Há quem defenda que a arte surge na pluralidade das interpretações. E é sobre esta liberdade interpretativa, conjugada com o conceito de bom e de bonito que hoje falar. Com frequência vemos ou ouvimos algo que nos chama a atenção, que fica no ouvido, que conseguimos facilmente reproduzir e que divulgamos duma forma, como hoje se diz, viral sem muitas vezes pensarmos e percebermos o que realmente estamos a transmitir. Há já alguns anos que uma dúvida me persegue relativamente ao poema duma canção do André Sardet, Foi feitiço. Uma música romântica, reproduzida à exaustão, que eu não acredito que haja alguém que não a conheça, mas acredito que muita gente a cante, goste dela, envie às namoradas e não esmiúce aquilo que lhes está a dizer. Por favor, nunca me enviem este poema. O seu refrão, que facilmente fica no ouvido e a música que é lindíssima quando estamos distraídos, diz o seguinte:

“Eu não sei o que me aconteceu

Foi feitiço

O que é que me deu?

Pra gostar tanto assim de alguém

Como tu”

É aqui que entra a pluralidade de interpretações. A minha é pouco abonatória para a cidadã em questão. Dizer a alguém que só por feitiço, ou o que é que me deu? para gostar tanto assim, é um insulto. Não transformemos este insulto numa frase carinhosa. Expliquem-me isto. Foi feitiço. Não estou bom da cabeça. Como posso gostar tanto assim de alguém como tu? Tu, tu, tu que não tens nada que te abone, sei lá, és feia, chata. Só mesmo por feitiço.

É o romantismo bacoco de quem ouve mas não escuta, de quem olha mas não vê, de quem quer mas não sente.

03
Mai17

Um estranho em ti

Paulo L

Podemos esperar muita coisa duma gravidez, agora que o feto seja o narrador e uma testemunha improvável de um crime que acontece, só mesmo no último romance de Ian McEwan, Numa casca de noz. Uma ideia interessante e bastante curiosa. A evolução dum plano de assassinato vai-nos sendo contada por um bebé ainda no ventre materno. Vamos percebendo as emoções e os constrangimentos desta testemunha, impossibilitado de fazer o que quer que seja, excepto no causar algum desconforto na sua mãe, quando algumas situações se vão extremando. Ele vai sendo a testemunha insuspeita do que se vai passando entre as cenas de sexo, o conluio dum envenenamento e o consumo mais do que razoável de vinho, entre dois amantes, curiosamente cunhados, e que querem matar o seu pai. Apesar de aprisionado no ventre dilatado da mãe, vive uma liberdade absoluta. E não deixa de apreciar um copo de vinho partilhado com a mãe. Tem uma escrita fácil, o que não quer dizer que o livro seja fácil. Podemos tirar algumas ilações interessantes e, como já algures aflorado, constituir um apelo anti aborto. Um feto que fala, que pensa, que de certa forma tem vida própria, não poderá de forma alguma deixar de existir e a sua presença é uma presença forte ao longo de todo o livro. Na realidade não poderia haver outro narrador. Desvirtuava o efeito narrativo, banalizando o aspecto descritivo. Apesar de todos estes aspectos positivos, quando o comparo com os três livros que li de McEwan, Expiação, Na praia de Chesil e Sábado, este foi o que senti mais superficial, menos rebuscado conceptualmente, mais fácil de ler. Voltando aqui ao aspecto gráfico, esta edição compactada complicou-me a leitura e, acredito que se não fosse pela ligeireza descritiva, talvez tivesse interrompido o livro a meio. Tem um grafismo cansativo. Um ponto a ter em conta em futuras edições.

Todas estas considerações complicam a escolha de associação musical. Algo aparentemente mais superficial, talvez mais melódico, com uma linha narrativa simples, mas que se goste ao se ouvir logo à primeira vez. Pensei em Andrés Márquez e En el Alfeizar.

01
Mai17

Gostos!...

Paulo L

Sempre detestei aquele cliché “gosto de toda a música desde que seja boa”. Eu não! Há muita música que eu não gosto independentemente de ser boa ou não. Como há muita música que eu gosto e que talvez se enquadre no conceito de música “não boa”.

Há várias questões que devem ser postas:

O que é “música boa” e o que é “música má”? E já agora, também há “música assim-assim” ? Que não é boa nem má... anda por aí algures e a malta vai decidindo se a classifica ou não. Vai-se tolerando. Não a ouvimos com prazer, mas também não mudamos de estação...

Quem define que a música é boa ou má? Quem faz música, quem critica música, quem ensina música, quem toca música ou quem apenas ouve música? Há aqueles que fazem mas não sabem criticar, há os que criticam mas não sabem tocar, há os que tocam mas não sabem fazer, há os que ensinam mas não sabem criticar, há os que criticam mas não sabem fazer, enfim há um conjunto de combinações entre a competência numas coisas e a incompetência noutras. E onde entra o gosto no meio disto tudo? Se é bom, tenho forçosamente que gostar? Ou posso não gostar? E tenho que não gostar do que é mau? Ou posso gostar? E para confundir ainda mais, deixem-me acrescentar o bonito. E é bonito? Mas é bonito porque eu gosto, ou é bonito porque é bom? E se é bom tem que ser bonito? Ou há músicas boas que não são bonitas? E as músicas más, são bonitas ou feias? E se forem más e bonitas? Ou boas e feias? E eu gosto porque é bom ou porque é bonito? Pode ser bonito e mau, bonito e bom, feio e mau ou feio e bom... Isto é um bocado complicado.

De que forma é que nós condicionamos o nosso gosto? Gostamos do que é bonito ou aprendemos a gostar do que é bom? E quando começamos a gostar do que é bom, isso condiciona o que começamos a achar que é bonito? Há algum tipo de relação entre o bom e o bonito? Há algum tipo de condicionamento, quando começamos a distinguir o bom do mau, relativamente ao bonito e feio? O que hoje é bom ou bonito, amanha pode ser mau ou feio? O que gostamos agora é o que gostamos sempre ou hoje gostamos de coisas não gostávamos anteriormente? E no futuro manteremos os mesmos gostos? Ou vamos mudá-los? E se os mudarmos é por quê? Porque somos mais velhos? Porque temos outras experiências? Porque adquirimos ou perdemos sabedoria? Porque o estado de espírito muda? Porque o dia-a-dia é diferente?

Já não tenho paciência para ouvir “mas olha que é muito bom...” quando digo “não gosto nada disto!”

Pág. 2/2

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2020
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2019
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2018
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2017
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub