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Lata de Conversas

Lata de Conversas

29
Mai17

Cinco sentidos – O olfacto

Paulo L

Quando iniciei a saga dos Pecados Capitais disse que ia alternando com outros temas para não monotonizar a leitura daqueles que ainda têm a paciência e o carinho de perderem tempo com isto, mas também daqueles que certamente lerão com gosto e dos muitos novos leitores que certamente terei com a divulgação do blogue. Bem, presunção e água benta cada um tem a que quer, diz o povo e com razão.

Muitos dos pecados capitais estão ligados aos sentidos e por isso, faz-me sentido, também neles falar. Se da audição tenho vindo a ser insistente ao associar música aos livros, dos outros sentidos não tenho dito grande coisa. Uma abordagem ao tacto quando manuseamos os livros; uma abordagem ao olfacto quando sentimos o cheiro a papel ainda novo dum livro acabadinho de comprar ou o cheiro a mofo bafiento dum livro há muito guardado numa arrecadação húmida. Do paladar falarei sempre através dos outros sentidos (por muito apetitosas que possam ser as imagens e por muito que tenha despertado o apetite ao falar de O clube dos anjos e de Les Dîners de Gala, ainda não me estou a ver comer algumas páginas).

Hoje iniciarei, também de forma alternada, alguns textos sobre livros que puseram à prova Os Sentidos. Aquele que primeiro me chamou a atenção, talvez até porque foi um dos primeiros livros que li na juventude e que me marcaram pela beleza descritiva que se pode fazer do horror narrativo foi O Perfume – história de um assassino. A busca do perfume ideal, considerado como a forma suprema da beleza, leva Jean-Baptiste Grenouille às piores atrocidades. O que no princípio começou por ser um dom, um olfacto absoluto, um génio perfumista, rapidamente se tornou numa obsessão mortal em que a incessante busca da suprema beleza olfactiva teve como consequência uma série de assassinatos, que se tornaram na única forma de o odor ser captado e absorvido duma forma impar.

Uma história que se inicia nos arredores mais pobres e sujos de Paris, em pleno século XVIII, passando para os bairros mais ricos da cidade, onde Grenouille vai fazendo um percurso de ama em ama até às melhores perfumarias parisienses, onde priva com a alta sociedade, até sentir numa jovem uma nova e agradável fragrância que, para guardá-la só para si, o levou ao primeiro assassinato. Após muitas venturas e desventuras, o isolamento a que se votou levou-o a perder o seu olfacto sentindo apenas o seu próprio odor. E então parte em busca dos melhores odores, tirando a vida a jovens virgens para ficar com os seus odores. E misturando todas as fragrâncias que vai desta forma recolhendo, alcança o seu objectivo, o melhor perfume de sempre. Não vou desvendar o fim do livro, vou deixar o leitor apurar os seus sentidos e percebe-lo conjugando-os.

O surrealismo onírico expresso neste livro, descrevendo duma forma maravilhosamente bela a mistura das diferentes sensações que vão do horrível ao fantástico, do belo à obsessão, da ausência de afectos à pureza, tornam este primeiro romance de Patrick Süskind num clássico.

Esta mistura de sensações leva-me a voltar a Bernardo Sassetti e ao seu álbum Ascent. Uma conjugação perfeita. Mas aqui falámos essencialmente de odores. Ponham a música a tocar ao fundo e associem um bom vinho, talvez do Douro, onde o aroma a frutos vermelhos se destaque.

26
Mai17

Um livro é uma expressão de afectos

Paulo L

Um livro é uma expressão de afectos. Quem escreve quer transmitir o que lhe vai na alma. De forma mais ou menos elaborada traduz um estado de espírito existente no momento da escrita. Um texto mais enfático num momento de euforia, mais dramático num período de tristeza, diferentemente adjetivado conforme a circunstância, traduz certamente a experiência narrativa do autor. Contudo, a expressão dramática expressa em cada parágrafo não é dissociativa deste estado de espírito e isto é que transforma a narrativa numa apetecível companhia. A envolvência cultural e ambiental é fundamental para o aspecto realístico da cena transmitida. Quando tento associar uma música ao acto de leitura, conjugando-a com o texto em questão, é porque me parece que combinam e que não se sobrepõe à leitura atenta mas, duma forma simbiótica e por vezes até duma forma submissa, faz sobressair os afectos expressos no texto. Isto porque estamos a dar a primazia à leitura, mas quantas vezes dou por mim completamente abstraído do texto que estou a ler e absorto na melodia que suavemente enche o espaço. Aí começo a reparar em pormenores que até então me tinham passado despercebidos, ou que até tinha reparado neles mas não me absorveram a atenção. Encontro aí uma inversão de papéis. A música sobrepôs-se ao livro porque também a música é uma expressão de afectos. Sentimo-los de forma diferente. E esta diferença reflete a forma de estarmos naquele momento. Apesar dos estímulos não serem mutuamente exclusivos, a forma de os percepcionarmos é diferente e aí sim, somos nós que eliminamos o estímulo menos favorável no momento. Como expressão artística, não tenho preferência. Mas conforme a situação, o estado de espírito, a necessidade de um estímulo cerebral e vejo-me, por vezes, a ter que optar por uma destas expressões estéticas e, muitas vezes, a terminar uma para manter a outra porque é a que me complementa nesse momento. Apesar da sua complementaridade, há períodos em que é necessário uma atenção primordial num dos géneros, com a completa exclusão do outro. E isto ocorre principalmente quando a tradução dos afectos está a ser percebida como um conjunto de diferentes sensações transmitidas pela narrativa literária e pela narrativa melódica. Aí nós conseguimos sobrepor aquela que nos é mais favorável, transformando a outra numa interferência inestética que tendemos a abolir, mais do que a ignorar. E se numa primeira fase a conseguimos ignorar, havendo um período de concomitância, com o tempo esta concomitância torna-se agressiva e desagradável, obrigando à sua completa exclusão. Isto explica o facto de por vezes gostarmos de ler e ouvir música, por vezes gostarmos de ler e por vezes gostarmos de ouvir música. Hoje, apeteceu-me simplesmente escrever.

22
Mai17

Continuemos na gula

Paulo L

Uma das minhas aquisições do inicio do ano foi Les Dîners de Gala, um livro originalmente publicado em 1973 e que a Taschen agora relançou.

Divididas por 12 capítulos, estão 136 receitas descritas e ilustradas por Dali. Além das soberbas imagens surrealistas do Pintor, faustosas fotografias dos deliciosos petiscos em suculentas mesas com requintes decorativos particulares, fazem as delicias dos leitores, estimulando-lhes as papilas gustativas e levando-os ao pecado da gula que certamente aqui ninguém fica indiferente.

Não posso deixar de transcrever uma nota introdutória que cabalmente traduz o espírito do livro:

 

“We would like to state clearly that, beginning with the very first recipes, Les Dîners de Gala, with its precepts and its illustrations, is uniquely devoted to the pleasures of Taste. Don´t look for dietetic formulas here.

 

We intend to ignore those charts and tables in which chemistry takes the place of gastronomy. If you are a disciple of one of those calorie-counters who turn the joys of eating into a form of punishment, close this book at once; it is to lively, too aggressive and far to impertinent for you.”

 

Não existe melhor descrição para o livro que esta. Eu não o faria melhor, mas quem sou eu? Certos poetas e romancistas teriam o dom de ilustrar estas qualidades também duma forma soberba, mas faltava-lhes certamente o realismo vivido que tornou únicos estes jantares.

Sentindo uma certa nostalgia por viver numa época diferente e afastado desta realidade gastronómica, permito-me ir além d a nota introdutória e dizer que mais do que unicamente devotado ao prazer do gosto, é devotado ao prazer dos sentidos. Aqui junto-lhe o aroma, a textura e a visão estética. E certamente que na sala não poderia deixar de existir uma música que ao fundo fosse aguçando o apetite com a sua melodiosa impertinência. Gershwin seria perfeito. Seria o que eu poria.

 

Folhear o livro transporta-nos para o ambiente de luxúria vivido à época, onde tudo passava a ser permitido, emoldurado por um requinte estético num ambiente único multicultural, onde nenhuma forma de expressão artística se excluía. Poderei noutra altura dissecar com mais pormenor algumas receitas bordadas por pinturas dum imponente surrealismo, com tonalidades lascivas e nalguns casos, com um pendor erótico importante. Mas não quero hoje passar deste pequeno aperitivo.

20
Mai17

Sete pecados capitais – a gula

Paulo L

Alternadamente com um vasto universo de temas, dedicarei algumas reflexões a livros que abordem o tema dos pecados capitais.

Se a arte de bem cozinhar e de melhor comer está dispersa por inumerável conjunto de livros, e excluo aqui os livros de culinária, é porque este sempre foi um dos temas preferidos do ser humano. E apesar da actual mudança de hábitos dietéticos, a felicidade tem sido exposta sempre após copiosas refeições. Há disso vários exemplos, alguns transpostos também para cinema, e o tema vai-se perpetuando porque mesmo percebendo-se que o prato deve ser cada vez mais vazio e colorido, o olho continua a ser cheio e gorduroso. Começando com A grande farra, um filme franco-italiano em que quatro homens decidem refugiar-se numa mansão e comer até morrer, passando pela subtileza de A festa de Babette de Karen Blixen, adaptado ao cinema por Gabriel Axel ou por Chocolate de Joanne Harris também cinematografado e com brilhantes interpretações de Juliette Binoche e Johnny Depp, não pararia de dar exemplos e sugestões.

O clube dos anjos é um pequeno livro de Luis Fernando Veríssimo que nos fala da gula. Da gula levada ao um extremo que, mesmo sabendo que a morte vai surgir, não se deixa de apreciar a suculenta refeição confeccionada por um chefe, inicialmente desconhecido de todos, mas que ao longo do livro se vai tornando num personagem deveras intrigante. Dez amigos reúnem-se em jantares onde o anfitrião é o responsável pela qualidade gastronómica daquilo que apresenta. A história vai-se sucedendo com a introdução dos defeitos e qualidades de cada um dos dez amigos e com o perceber de qual o seu preto preferido. A meio entra um novo personagem numa casualidade propositada que, fruto da sua mestria de cozinheiro e especialista na escolha e aquisição dos ingredientes, vai passar a ser o chef oficial dos banquetes. E após cada banquete um dos dez amigos morre. Não vou dizer como nem porquê, vou aconselhar a leitura do livro. Muito mais que a gula, há uma euforia em torno dos novos pratos, em torno dos sabores e em torno de toda aquela realidade mística dos paladares. Uma caminhada sem retorno que nenhum dos participantes quer abandonar mesmo sabendo a que fim está destinado. Para ler e saborear... mas sem uma gula desmedida.

Um senão. O livro está escrito em “português do Brasil”, o que quer que isso queira dizer.

 

19
Mai17

Mil palavras valem uma imagem

Paulo L

Seda não poderia ser fotografado. As sucessivas paisagens que nos vão sendo descritas não têm outra tradução que não por palavras. A esmerada escrita de Baricco, num soberbo tom descritivo, emoldurando o cenário das árduas viagens de Hervé Joncour ao oriente, um fabricante de sedas que, devido a uma peste que dizimou as plantações europeias e do norte de áfrica se viu obrigado a ir diretamente ao Japão buscar os casulos. Nenhuma imagem consegue transmitir de forma tão precisa esta beleza. A alternância de locais entre uma pequena aldeia rural francesa, fracamente industrializada e um Japão em crescimento com ideais antagónicos, onde as diferenças culturais, sociais e morais são constantemente postas à mostra. Além duma narrativa descritiva essencial na percepção paisagística e nas dificuldades reais que todo o percurso encerra, temos uma alternância com uma prosa poética, menos abundante mas igualmente bem urdida a transmitir a paixão que se vai desenvolvendo entre o jovem Hervé e uma das concubinas do negociante japonês. A contenção de palavras não traduz a contenção dos afectos. A demonstração de um amor platónico, a todo tempo ansiando-se por terreno transforma este livro numa transmissão de afectos, mais do que numa narrativa de viagens. Há um desfasamento descritivo – intuitivo, ou seja, por trás de toda a narrativa da viagem deixa-se perceber o que de mais profundo acontece no domínio dos sentimentos. Nestes muitos anos que passaram desde a minha primeira leitura do livro, vou retendo o essencial da sua história e vou transmitindo a beleza literária que me surpreendeu desde as primeiras linhas. Se há livros que gostei de oferecer, Seda foi sem dúvida um deles. Apesar dos seus dez anos de existência continua um livro para ser lido. Para mim um clássico; já falamos disto atrás.

Também como Seda, Anatol Ugorsky surpreendeu-me com a sua delicadeza ao piano. Como um subtil trabalho no frágil fio de seda, Short Stories é-nos dado como a transcrição musical dos afectos que concomitantemente vamos apreciando ao desfolhar lentamente esta ode ao amor.

15
Mai17

A magia acontece

Paulo L

Insinuante e provocadora, a miúda ia alimentando as fantasias do fotografo. E este romantismo mágico, expresso em todo livro através duma narrativa poética excepcional, fala-nos de afectos.

O fotógrafo e a rapariga termina uma trilogia dedicada aos relacionamentos de pessoas de idades diferentes. Aqui, os protagonistas são Charles Dodgson, matemático e fotografo, mais conhecido pelo pseudónimo de Lewis Carroll e Alice Lidell, a sua musa inspiradora. A narrativa vai-se desenvolvendo, com quadros duma beleza estética soberba e sucessivas passagens de equívocos sentimentais. Intensionalmente ou não, a rapariga cria no fotografo um delírio passional que o atormenta e que vai sendo expresso através das páginas escritas de Alice no País das Maravilhas. Aqui também há o Coelho branco e o seu relógio, o gato de Cheshire, o Chapeleiro maluco e a Rainha de Copas, mas o mundo mágico vai-se passando na cabeça do fotografo.

Este delirante realismo de Lewis Carroll é transposto por Mário Cláudio para O fotógrafo e a rapariga transformando-o num romance poético a não perder.

14
Mai17

Parabéns Salvador

Paulo L

Hoje, por motivos óbvios, dou os parabéns ao Salvador e à Luísa Sobral.

Há músicas que parecem feitas para determinados interpretes e Amar pelos dois foi feita para Salvador Sobral. E da mesma forma que não imagino outra pessoa a cantar Amar pelos dois, não imagino Cavaleiro Andante sem ser por Rui Veloso, E depois do adeus sem ser pelo Paulo de Carvalho, Chuva sem ser por Mariza, Foi Deus sem Amália Rodrigues ou mesmo Se por caso (me vires por aí) sem JP Simões. Muitos outros exemplos poderia dar. Há músicas que só pertencem a Pedro Abrunhosa. Músicas que são da Mafalda Veiga. Restolho, Cada lugar teu, Balançar, não vale a pena sequer tentarem, não fica bem. Estrela do mar pertence a Jorge Palma. E isto não se resuma à música portuguesa. Lately é do Stevie Wonder, Jealous é de Labrinth e My way de Frank Sinatra. Estranha loucura é, sem duvida, de Alcione, As rosas não falam tem que ser ouvida por Emílio Santiago e A rapariga do sonho por Maria Bethânia e Chico Buarque.

São apenas alguns exemplos, mas muitos outros andam por aí. Infelizmente algumas vezes ouvimos alguém “estragar” uma música. Nem todos são fadistas, porque é que alguns persistem em cantar fado? Nem todos são cantores pop, o canto lírico é para alguns, mas a figura triste tem sido para muitos. Mas até para isso é preciso ter estilo. Dom Quixote de la Mancha é o cavaleiro da triste figura, mas esse era um Senhor. Por favor, esta é uma figura que não fica bem a qualquer um, evitem-na o mais possível. Salvador Sobral foi o nosso D. Quixote (mas não o da triste figura) no Festival da Eurovisão. Com uma determinação e espontaneidade próprias lutou contra moinhos de vento e engrandeceu o nome de Portugal. Excelente música, excelente poema, excelente arranjo. Uma melodia penetrante, um timbre ternurento, um arranjo melódico extraordinário, uma harmonia subtil. E um poema soberbo, de uma beleza romântica excepcional, onde o coração a sofrer de amor transmite a enorme generosidade de amar pelos dois.

Muitos parabéns SS. Esta música deixou de ser tua, passou a ser Património Nacional.

13
Mai17

Um postal que pode ser de qualquer lado

Paulo L

Repleto de personagens com histórias engraçadas, que se entrelaçam em tempos e locais diferentes, Um postal de Detroit, poderia ser um postal de qualquer lado. Partindo dos cadernos de desenho da irmã, o narrador desenvolve ao longo do livro, num tom umas vezes descritivo e noutras vezes narrativo, uma descrição dos intrincados laços interpessoais dum conjunto bizarro de personagens, nas mais diversas situações quotidianas, em que se percebe, por entre a amálgama descritiva, um fio condutor coerente e bem urdido que nos leva, no fim, ao entendimento global das vidas aqui partilhadas. Tudo começa com a procura incessante de Marta, que desaparece após um acidente de comboio, e que fica ao critério do leitor a decisão quanto ao seu encontro. Um dos pontos altos deste romance, no meu ponto de vista, é a relação do narrador com a irmã desaparecida. Ele toma as rédeas da história, burilando todos os personagens duma forma irrepreensível, entrelaçando as suas vidas trágico-cómicas, com excertos que vão duma delicadeza sentimental apurada à rudeza de algumas passagens encarando uma violência psicológica substancial. E ao mesmo tempo torna-se no personagem mais ausente da história. Aquele que foi sempre excluído dos cadernos de Marta. Como anteriormente já fiz referencia, não gosto de contar a história nem de transcrever alguma sinopse dos livros que exponho. Deixo essa procura ao leitor. Gosto apenas de deixar algum comentário do que mais me chamou a atenção, do que gostei ou não, despertando de alguma forma no leitor a vontade de procurar o resto. Sendo apenas um amante da leitura e não um perito em literatura, os meus comentários apenas se podem basear no gosto e na interpretação que faço dos livros, podendo, em muitos casos serem apreciações erradas e completamente ao lado do fulcro temático. Confesso que não tinha expectativas quando comprei o livro. Não me interessou se iria gostar ou não, se iria ser bom ou mau. Interessou-me apenas o facto de ter gostado do primeiro livro de João Ricardo Pedro, O teu rosto será o último. Ao compará-los encontro algumas analogias em termos de narrativa, com uma construção conceptual idêntica, mas, para mim, muito melhor conseguida neste Um postal de Detroit, onde encontrei uma maturação literária importante relativamente ao primeiro romance. Não sei se se retira ou não qualquer conclusão deste livro, mas é um livro que merece ser lido.

Tive uma certa indecisão para complementar musicalmente a leitura do livro. Talvez esta conjugação de personagens se enquadre bem numa diversidade de locais que podemos encontrar em Brad Mehldau e Places.

11
Mai17

Paulo L

Só,

No recanto do meu quarto

Embalado pela tristeza e pela saudade,

Apago a luz e penso em ti

 

Sinto-te tão real

O teu perfume adoça o ar.

E brilhantes, os teus olhos,

Deixam-me ver o corpo nu junto ao meu.

 

A cabeça no meu regaço

E o calor do teu corpo no meu abraço.

A tua pele, suave veludo

O meu sonho no futuro.

 

Ter-te comigo nesta noite solitária

Tatear o teu corpo, sentir a tua entranha.

Absorver o teu odor,

Sentir o que acho ser o teu amor.

 

E a luz da alvorada

Que me guia na tua estrada,

Faz-me crer no que sinto

Faz-me seguir o instinto.

 

Numa outra madrugada

Que o futuro me terá guardada,

Embalado pelo encanto e pela alegria

Apago a luz na tua companhia.

 

PL

 

E ao fundo Chopin, Balada nº1 em Sol menor op. 23

 

08
Mai17

Alguns meios não justificam os fins ...

Paulo L

Num tom ligeiro Andrea Camilleri escreveu a A concessão do telefone. Um livro bastante divertido. Uma história que, embora passada nos finais do século XIX, tem contornos de alguma actualidade. Filipo Genuardi solicita às entidades oficiais uma linha telefónica privada entre a sua loja e a casa do sogro. A correspondência trocada, o sem fim das burocracias, os inumeráveis intermediários e os inenarráveis imbróglios tornam este livro numa comédia de costumes ao mais alto nível. O final é delicioso. Estará algum fim menos claro por trás desta tão ansiada linha telefónica? Não estão à espera que vá contar, pois não? Como se diz agora, não quero ser um spoiler, ou seja, o indivíduo que conta o fim da história, estragando a surpresa do leitor. Há uma moda terrivelmente absurda na utilização de estrangeirismos na língua portuguesa, onde vários exemplos se poderão dar, que entram num absoluto contraditório com aquilo que se quer com a uniformização duma língua quer no seu aspecto escrito como falado. Não posso deixar de me referir ao famoso acordo ortográfico, acordo este que pretensamente pretenderia uma uniformização disforme de uma língua que se crê ser o português. Uniformização disforme porque, se por um lado quer que se haja um entendimento global daquilo que se diz e que se escreve, por outro lado permite que a grafia varie em diversas circunstâncias. Mas pior que este acordo gráfico que transforma facto em fato, ou seja, que por decreto transforma um acontecimento numa peça de roupa, é a manipulação descabida de conceitos. Quando se uniformiza um acontecimento com uma peça de vestuário, para usar o mesmo exemplo, e transformo facto em fato para ter um grafismo semelhante e fazer com que o irmão brasileiro compreenda, acredito que se continue a andar nu. Efectivamente, para o irmão brasileiro ceder a sua peça de vestuário era necessário ser-lhe pedido um terno. Ora aqui entra a matar a clássica expressão “o rei vai nu”. E vai nu literalmente porque leva um fato brasileiro e eu nunca vi ninguém vestido de acontecimentos mas, vai também simbolicamente nu porque um terno português talvez não lhe cubra mais do que um pequeno rectângulo corporal. Mas outra característica que torna o português uma língua bonita e difícil é a sua pluralidade de significado. Terno, além de uma pequena carta de um baralho, representa um conjunto de três. Mas se esquecermos o lúdico e passarmos ao romântico, terno é alguém que é carinhoso, afectuoso, meigo, sensível. E aqui está outra beleza da língua portuguesa, para expressarmos o mesmo sentimento podemos usar várias palavras. Há alguma coisa mais bonita do que isto? Encontrem esta beleza nas línguas anglo-saxónicas! Não existe. Então defendamos a língua portuguesa. Fernando pessoa dizia “A minha Pátria é a minha língua” . Façamos todos isso e isso fará de nós grandes. Continuo a defender que um povo pode perder tudo menos perder a sua língua.

E ouçam Mariza e Meu fado meu.

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