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Lata de Conversas

Lata de Conversas

30
Abr17

Serão as revistas uma leitura menor? Claro que não!

Paulo L

Sou um adepto incondicional das revistas. As minhas opções andam, neste momento, pela Ler e pela Granta mais dedicadas às letras, O mundo da fotografia digital, no âmbito da fotografia, a National Geographic conjuntamente com as suas edições especiais, num contexto mais global, a Revista de História do Jornal de Notícias e, ocasionalmente, alguma outra que por qualquer motivo me chame a atenção. Já fui um leitor assíduo da La Aventura de la História e da História Y Vida, duas revistas espanholas dedicada a temas de história, que tinham uma particularidade muito engraçada. Contavam a história do ponto de vista espanhol o que, nos episódios relacionados com ambos os países ibéricos, as descrições, explicações e conclusões eram quase sempre diferentes daquelas que fomos aprendendo ao longo dos anos escolares, onde as proezas lusas eram magnificadas de tal forma que nos fomos habituando a ver alguns personagens históricos como muito perto dos semideuses gregos. Lembro-me duma descrição da ida de D. João VI para o Brasil. Tinha aprendido nas aulas de história que esta ida para o Brasil tinha sido uma brilhante estratégia política, permitindo um governo à distância e protegido das invasões napoleónicas. Pois um artigo numa destas revistas destruiu o meu romantismo histórico para com o Rei e a sua mulher, ao descrever D. João VI como tendo cobardemente fugido do país para garantir a sua sobrevivência e a necessidade de D. Carlota Joaquina ter de rapar o cabelo durante a viagem para o Brasil em resultado dum ataque infernal de piolhos. Diverti-me imenso a ler este episódio descrito por nuestros hermanos. O reduzido tempo que agora disponho levou-me a abandonar os aspectos históricos da civilização, concentrando-me mais na literatura, na música e na fotografia.

Aprecio bastante as entrevistas na Ler. Habitualmente pessoas interessantes com muito para contar. Tenho aprendido bastante e tenho alargado os meus horizontes em muitos capítulos, desde a escrita à composição gráfica. Pequenos pormenores a que passei a estar atento. Pequenas notícias que me mantém atualizado. Críticas que me mostram formas de pensar diferentes da minha e pontos de vista que nunca me teriam passado pela cabeça. Uma revista que aconselho a leitura. A Granta saiu um bocado aquém das minhas expectativas. Os textos dos autores estrangeiros, embora muito bons, são, a maior parte das vezes, já antigos, valendo alguns textos de autores nacionais contemporâneos, que vão divulgando algumas ideias que doutra forma não teriam onde as passar. As revistas de fotografia uso-as para uma aprendizagem autodidata, tentando melhorar um bocadinho a pouca qualidade que as minhas fotografias ainda vão tendo mas que, nalguns casos, já me vão satisfazendo. A National Geographic continua a dar-me o mesmo gozo a lê-la que me dava quando comecei a assiná-la, há muitos anos, ainda na sua versão original em inglês. A associação de textos bem escritos e construídos, com um interesse científico e cultural elevado a uma qualidade fotográfica soberba, que continua a ser um dos apanágios da revista, tornam a National Geographic um clássico a não perder.

Uma revista não substitui um livro. A leitura das revistas complementa a leitura dos livros. E há-as para todas as ocasiões.

29
Abr17

Os livros mudam o destino das pessoas

Paulo L

Mas voltemos às escolhas. Sempre que num livro há uma alusão a outro, eu interrompo a leitura e vou investigar esse outro livro. Se um escritor o referenciou é porque algo de bom há de trazer. Foi assim que descobri A casa de papel, de Carlos María Domínguez, a ler Manuel Jorge Marmelo. É um livro sobre o amor aos livros. É um livro sobre o amor à literatura. É um livro sobre o amor às bibliotecas. É um livro sobre os livros. Logo é um livro que todos deveríamos ler. Pelo menos todos nós que gostamos de folhear, que apreciamos o cheiro do papel impresso, que temos prazer em ter o livro na mão, que quando olhamos para a estante sorrimos ao ver as lombadas ao alto, encostadas umas às outras, a sorrirem também para nós, como que a dizerem obrigado por nos teres lido, por nos teres manuseado com delicadeza, por te lembrares sempre de nós e por dizeres a muita gente o quão bons nós somos. E A casa de papel é assim. Cheio de referencias a outros livros, cheio de alusões à leitura, cheio de ternura pela literatura. Vejam a passagem seguinte: “...vivia sozinho na casa da rua Cuareim e devorava quantos livros lhe chegavam às mãos juntamente com inumeráveis pacotes de pastilhas e caramelos que se espalhavam pelo chão dos quartos. O hábito dos caramelos substituía o dos cigarros, que os médicos lhe tinham proibido, e era tão viciante quanto a sua paixão pelos livros, reunidos em compridas estantes que ocupavam os quartos, do chão ao tecto, de ponta a ponta; empilhavam-se na cozinha, na casa de banho, e também no quarto de dormir. Não o original, porque daí fora desalojado, mas no sótão para onde tinha ido dormir, ao lado de uma pequena casa de banho. A parede da escada que até lá conduzia também estava carregada de livros, e a literatura francesa do século XIX velava, digamos, o seu escasso sono. A casa de banho tinha livros em todas as paredes menos na do duche, e se não se estragavam era porque deixara de tomar banho com água quente para evitar o vapor…”. Quem não fica enternecido por esta paixão? Tudo começa com o atropelamento mortal de Bluma, depois de ter saído duma livraria, onde comprou um livro de poemas de Emily Dickinson. No dia seguinte, o colega que a substituiu no trabalho, recebe um envelope sem remetente com um livro de Joseph Conrad, A Linha de Sombra, com uma dedicatória de Bluma para Bauer. E quem é Bauer? É o que vamos avidamente descobrindo ao longo do livro. Não li, ainda, A linha de sombra, mas certamente não me cativará tanto como A casa de papel. Para ler numa tarde e guardar para toda a vida.

Branford Marsalis tocou Eternal no seu saxofone, um conjunto de baladas, num tom contemplativo, com uma sensibilidade romântica, introspectiva. Ouvir The ruby and the pearl ou ouvir The lonely swan ou ouvir Eternal, por exemplo, é tirar da música uma sensação muito semelhante à que se tira de A casa de papel.

28
Abr17

Uma forma estranha de nos gostarmos

Paulo L

Tive sempre alguma dificuldade com Gabriel García Márquez. Apesar de todas as críticas, dos comentários, de perceber a narrativa e compreender a história de várias gerações de uma família, com os seus encontros e desencontros, amores e desamores, evoluindo e retrocedendo conforme a época, a pessoa, o estado de espírito e a necessidade de consumar relações, embora tudo isto feito na mais desesperada das solidões e com isto reescrever a história duma América Latina dilacerada por constantes guerras, muitas vezes duma inutilidade atroz. A solidão e a estranha forma de amar da família Buendía e as peculiaridades das relações familiares traduzem, a meu ver, as peculiaridades e as relações entre os diferentes países latino-americanos. Cem anos de solidão e eu mantemos uma similar relação. Uma forma estranha de nos gostarmos. Queria poder dizer mal mas não consigo.

27
Abr17

A escolha

Paulo L

A procura de originalidade a todo o custo dá mau resultado, a não ser com tipos geniais, e estes são muito raros.”

Começo com esta frase de João Bicker para introduzir o tema de hoje, a escolha de um livro. Todos os dias nos deparámos com uma panóplia de novidades, reedições, comentários, críticas, publicidade, promoções, lançamentos, etc. Alguns livros chamam-nos a atenção mais do que outros e, nem sempre, são os melhores. Mas há coisas que nos fazem olhar para eles. O meu processo de escolha de um livro reveste-se de algumas particularidades. Vamos deixar de lado aqueles livros que me são recomendados por alguns amigos, que conhecem os meus gostos, e que naturalmente eu vou lê-los.

Normalmente o processo inicia-se pela conjugação da capa com o título. Se o design me for agradável por algum motivo, leio o título e pego no livro. Se o título me for chamativo, olho para o design e pego no livro. E dois passos sucedem-se por esta ordem, leio na capa ou na badana o resumo e folheio-o para ver o tipo e o tamanho da letra em que está impresso e o espaçamento entre as linhas. Tudo isto tem que me agradar. Percebe-se bem que um bom título é uma boa montra. O aspecto gráfico chama-nos a atenção para livro. Mas mesmo com estes dois aspectos positivos, o meu subconsciente faz-me repelir livros que percebe que vai ter dificuldade em ler pelo seu grafismo. Tranquilamente ia achando que era uma mania minha, que talvez se devesse ao facto de ficar mais cansado pela letra pequena e as linhas pouco espaçadas, até que, ao comentar com algumas pessoas este facto, me foram dizendo que também tinham alguma dificuldade em ler estes livros. Bem, já não era só o meu cérebro que era complexo, esquisito. Deixei de me sentir sozinho neste capítulo. E tudo se clarificou quando li a entrevista com João Bicker e que aconselho vivamente. Não só me clarificou alguns pontos relativamente ao design gráfico e ao trabalho de tipografia, como já me fez alterar o tipo de letra e a formatação de alguns trabalhos que tive que fazer. Nunca é tarde para aprender. Aliás, como também se costuma dizer, vive-se a aprender e morre-se sem saber. A aprendizagem não é mais do que o aumento da ignorância. Sempre que percebemos que o nosso desconhecimento numa área está a aumentar, significa que estivemos a aprender. O processo de aprendizagem leva ao aumento do fosso do conhecimento. Lemos, ouvimos, conversamos e estudamos para, ao mesmo tempo em que adquirimos um bocadinho de sabedoria, abrirmos uma cratera de ignorância. E é a repetição deste processo que é um gerador de conhecimentos e sabedoria. A aprendizagem e a sabedoria terminam quando começamos a achar que sabemos as coisas.

Com esta divagação, acabei por falar pouco no processo de escolha de um livro, mas a conversa é como as cerejas. E certamente que tendo de fundo Bernardo Sassetti e Indigo contribuiu bastante para esta divagação.

26
Abr17

Clássicos

Paulo L

Pergunto-me muitas vezes o que é isso dos “clássicos”. Tu viste este filme? É um clássico... Tu não leste este livro? É um clássico... Não conheces esta música? É um clássico. Mas porquê? E porque não outros? Eu muitas vezes até gosto mais dos outros!

Por definição clássico é um adjectivo para qualificar o que é considerado um modelo, que é ensinado na escola, que é relativo à antiguidade greco-latina, que é relativo aos autores que seguem as opções estéticas da antiguidade, que corresponde a padrões considerados perfeitos e intemporais numa determinada época ou que é habitual (Infopédia, Dicionários Porto Editora).

A definição que eu adoptaria seria a de um modelo que corresponde a padrões considerados perfeitos e intemporais numa determinada época. Mas intemporal numa determinada época é, no fundo, intemporal em todas as épocas. Então corresponderia aquilo que é sempre um padrão de perfeição independentemente da época em questão. O que me leva a considerar um clássico todo e qualquer livro, música, fotografia, pintura, etc. feita hoje e que corresponda a um padrão de perfeição intemporal.

Shalimar o palhaço é, então, um clássico. Uma obra-prima. Pelo menos para mim. Poucas histórias foram tão bem contadas. “Nesse verão triste, depois da morte de Misri, as maças dos pomares do pândita Pyarelal Kaul ficaram amargas e não se podiam comer, mas os pêssegos de Firdaus Kaul eram suculentos como de costume. O açafrão nos campos de açafrão de Pyarelal ficou mais descorado e menos forte, mas o mel das colmeias de Abdullah era mais doce do que nunca. Estas coisas eram difíceis de entender;”

É um livro sobre o amor; é mais que um livro sobre o amor. É uma elevação de Caxemira. Um local onde muçulmanos e hindus convivem na mais pura fraternidade, onde a tolerância, a entreajuda e a religião são vividas e festejadas conjuntamente. Até que valores políticos, que deveriam ser secundários, fazem sobressair o que de melhor e pior existe da espécie humana. Do amor ao ódio e do ódio por amor. É um livro de um só fôlego. A beleza da humanidade é descrita duma forma que não apetece parar de ler e o ódio que vai surgindo vai aumentando a necessidade de se perceber o que vai acontecer a seguir. Há um realismo fantástico, presente em muitos livros de Rushdie, que vai encantando o leitor.

Ninguém fica indiferente a esta história. Perceber Shalimar o palhaço é perceber todo um contexto cultural, filosófico e político de Caxemira, uma região disputada pela Índia e pelo Paquistão desde o fim da colonização Inglesa. E é esta disputa que vai crescendo ao longo do livro, que vai destruindo pouco a pouco um povo, que apesar das diferenças culturais e religiosas usufruía duma paz única. No fundo, acaba por ser também um livro sobre o radicalismo e como ele consegue transformar as sociedades. Sem dúvida, a não perder.

Para mim, um clássico. E porque não juntar a este clássico a Sinfonia nº 5 de Gustave Mahler? Nesta sinfonia, passamos do mais trágico e o mais alegre. A música passa de um ambiente emocional negativo para uma alegria radiante, deixando no seu IV andamento, o Adagietto, uma elegia ao amor. Apesar de finais diferentes, se pusermos lado a lado o texto e a música, penso que os pudemos conjugar num aprazível momento.

25
Abr17

Chá e amor

Paulo L

São já muitos anos de leituras. São já muitos livros digeridos, uns sofregamente outros devagar e outros ainda a muito custo. Gostava de falar de todos mas a memória já não ajuda. Todos os comentários que tenho feito são fruto do que me vou lembrando, daquilo que de melhor e de pior fui retendo e que o meu subconsciente se esforça por manter à tona, não deixando cair no esquecimento total. E por isso, por vezes, afloro o tema não o desenvolvendo como gostaria porque isso me iria obrigar a reler muitas das passagens das centenas de livros já consumidos. Mas como um dos meus objectivos é lembrar algumas das coisas que gostei, despertando o interesse do leitor, um simples comentário poderá ser suficiente e por vezes mais produtivo.

Ao longo destes anos não pude ficar indiferente a livros como O Perfume, A fogueira das vaidades, Mentira, Shalimar o palhaço, A casa do pó, A mancha humana, As velas ardem até ao fim, Terapia, entre muitos outros. São livros que certamente falarei no decorrer destes textos. São livros de que me lembrarei mais, me lembrarei menos, mas que marcaram a minha forma de pensar, de sentir, de ver o mundo e de me relacionar.

Estou sentado no meu escritório, a percorrer a estante com um olhar rápido, tentando buscar mais memórias e reparo que não encontro a Fogueira das vaidades. Começo a pensar que mais livros não encontrarei e a pensar onde estarão... E no meio desta procura descubro um livro que já não me lembrava de o ter lido, Chá e amor de Yasunari Kawabata. Vou voltar a lê-lo. Estranhamente a sua recordação não se manteve à tona, caiu no mais puro esquecimento. E porque falo dele agora? Porque há uns meses me foi dado Kyoto. Uma escrita com uma beleza floral, com uma delicadeza descritiva, onde a fusão do elemento humano com a natureza é feita duma forma absolutamente singular. A história de uma jovem adoptada, que tenta uma aproximação após ter encontrado casualmente a sua irmã gémea, criada num ambiente social muito diferente e que juntas vão descobrindo o brotar da sexualidade, passando por questões fundamentais na sociedade, como o passar das estações e as tradições culturais, num período pós retirada das tropas de ocupação americanas, com o inicio da ocidentalização do Japão e a liberalização dos costumes mais tradicionais levando a um confronto de valores entre o mais tradicional e o vanguardismo juvenil. Um livro a reter e que me vai fazer reler Chá e amor, mas só após dos outros dois livros de Kawabata já na calha, A casa das belas adormecidas e Terra de Neve.

E com o álbum a solo de Keith Jarrett, The melody at night, with you, como som de fundo à leitura de Kyoto ... que mais podemos querer?

24
Abr17

A propósito... Houellebecq

Paulo L

França 2022. As eleições presidenciais são ganhas pelo candidato do partido da Fraternidade Muçulmana. Possuidor de um carácter forte, determinado e francamente sedutor e conciliador, foi capaz de mobilizar o voto e vencer a Frente Nacional. Numa França até então política e socialmente desorganizada, o apelo à reestruturação superficialmente conveniente foi ganhando adeptos. Aos poucos, desde os organismos estatais às universidades, foram mudando a agulheta do destino para um rumo mais fechado e subordinado aos preceitos do rigor islâmico, negligenciando e excluindo os ideais de uma França europeia e europeísta. É esta ideia que se quer ser transmitida mas que vem surgindo encapotada num narrador, professor universitário e descontente com o rumo da sua vida, a começar pela sua tese de doutoramento sobre um escritor e crítico de arte, Huysmans, mas que a aproveita para, ao longo do texto, ir falando da literatura ocidental, da mulher enquanto ser menor e objecto de prazer e da hegemonia da comunidade islâmica. Com a chegada ao poder de Ben Abbes constata-se uma reorganização do país, com a diminuição marcada da violência, o aumento da segurança, a diminuição do desemprego, mas com uma imposição muito activa dos novos conceitos islâmicos como a submissão da mulher ao homem e a submissão do homem a deus. Claro que muitas outras ideias estão explicitas e implícitas no livro, mas, a meu ver, o foco está na modificação sociocultural e política duma europa islamizada talvez muito por culpa da decadência ocidental.

Claro que falo de Submissão, onde encontro mais a exposição de ideias do que um brilhantismo literário. Não seria o livro que eu gostaria de escrever mas foi um livro que gostei de ler. Há uma actualidade latente neste livro que vem de há alguns anos e que se manterá por outros tantos. A história passada em 2022 poderia-se-ia ter passado em 2012, 2017 ou 2032. E como contador de histórias Houellebecq convenceu-me em Submissão. Não sei se me convenceria se me tivesse iniciado em Houellebecq por Extensão do domínio da luta e certamente não me convenceria se tivesse começado por Lanzarote. Curiosamente nunca me chamou a atenção O mapa e o território. Vamos ver se as críticas me convencem.

Talvez ao ter terminado a leitura do livro me tivesse apetecido ouvir Karl Jenkins The armed man: A mass for peace.

23
Abr17

Poética musical

Paulo L

De Paul Simon a Prince, passando por Neil Young, Paul McCartney e Georges Gershwin , Guillaume de Chassy e Daniel Yvinec reuniram um conjunto de músicas do século XX, cuidadosamente selecionadas, juntaram-se a Paul Motian e Mark Murphy e o resultado foi o magnifico álbum Songs from the last century.

Com um tratamento jazzístico conceptual rigoroso, mantendo uma abordagem melódica que não nos afasta dos temas originais, transmite-nos uma sonoridade que apetece ouvir continuada e repetidamente.

Uma primeira audição num volume mais elevado, com a completa abstração do espaço envolvente, absorvendo unicamente o piano, o contrabaixo, a bateria e nalguns trechos a voz, permite-nos a integração na música, captando o aspecto melódico que se manterá sempre vivo nas audições seguintes.

Assim, podemos baixar o volume, para um ambiente de fundo que nos permita passar à leitura do tão apetecido Homens imprudentemente poéticos.

Valter Hugo Mãe mantém o traço poético da escrita a que já nos habituou, talvez aqui com uma linguagem mais delicada, embora contando a história de um artesão e um oleiro que vão aumentando a inimizade que nutrem, a par dum respeito mútuo, mas com a promessa intima e secreta de se assassinarem. A irmã de Ítaro, o artesão,  é uma jovem cega mas com uma percepção sensível do mundo que a rodeia enquanto a mulher falecida de Saburo, o oleiro, personifica o amor. Saburo não ultrapassa a morte da mulher e a culpa crescente que põe em Ítaro aumenta-lhe o ódio diariamente. Apesar dum sucessivo desenrolar de situações trágicas dá-se a redenção no final. Continua a ser um livro sobre a solidão. Mantém um traço literário depressivo, se é que posso dizê-lo desta forma, embora não tão marcado como no anterior Desumanização. Mas apesar do constante fluir de situações dramáticas, a beleza conceptual, a facilidade no manejamento da língua e a riqueza construtiva e de vocabulário, tornam este livro numa das melhores obras da literatura portuguesa actual.

22
Abr17

A imprudência poética

Paulo L

Li, há alguns meses, na revista Ler, uma entrevista com Marcelo Mirisola. Um escritor brasileiro, polémico, algo escatológico, adepto da autoficção, um género literário ligado a uma autobiografia romanceada. O narrador, a personagem e o autor ocupam o mesmo espaço ficcional, não se tratando duma pura autobiografia mas de passagens, ideias ou situações que de alguma forma traduzem vivências realísticas do autor. O animal moribundo é um bom exemplo deste género literário muito presente em Roth e que me levou a parar, por algum tempo, a sua leitura. Em Roth encontramos um constante medo de envelhecer associado à incessante procura da companhia jovem e de jogos sexuais muitas vezes inverosímeis, que traduzem a obsessiva necessidade de mostrar a juventude enraizada no envelhecimento. Javier Marías nalguns romances também enveredou por este género, mas de Marías falaremos a seu tempo.

Um ponto interessante da entrevista é quando Mirisola refere que a maioria dos autores brasileiros contemporâneos vieram da universidade, considerando o meio universitário um meio castrador e demasiado contaminador da literatura. A obediência a regras rígidas e a pressão do “politicamente correcto”   travam o normal fluir do pensamento e da escrita. Um exemplo disso na literatura portuguesa é o romance de Isabel Rio Novo, Rio do esquecimento. Doutorada em literatura comparada, é docente de Escrita Criativa. Uma história fantástica, um desenvolvimento interessante, um ritmo notável de leitura mas, em minha opinião, um texto demasiado estudado, matematicamente elaborado, onde cada palavra só cabe ali e a sua ausência faz-se notar. Gostei de o ler mas senti este amargo de boca.

E este tema é retomado por Francisco José Viegas na Carta do Editor da Ler quando, a propósito do Acordo Ortográfico, diz e passo a citar “Comparando o léxico de Mau tempo no canal, de 1944, com o romance de um autor contemporâneo, percebe-se que desapareceu cerca de 20% do vocabulário. A língua portuguesa está confinada ao seu ersatz, uma espécie de substituto ligeiro, uma língua de anúncios de aeroporto, de fala de supermercado.” E mais à frente acrescenta, “As novilínguas tecnocráticas que os analfabetos popularizam são também um elemento a ter em conta para a perda de identidade da língua.” Não poderia estar mais de acordo.

Homens imprudentemente poéticos é a antítese deste cenário e Valter Hugo Mãe o meu “convidado” do próximo post.

21
Abr17

Iniciando devagar

Paulo L

Foi uma agradável surpresa Para onde vão os guarda-chuvas. Li-o no Verão de 2015 e foi durante a sua leitura que decidi ter um blog sobre livros. Tempo para o escrever era outra coisa... Mas não podia ficar indiferente aquela narrativa. A delicadeza e a doçura da escrita fugiam ao que me habituara nos escritores portugueses contemporâneos. Todas as personagens, com as suas peculiaridades, formam uma teia de sentimentos que vão muito para além do descritível. As consequentes efabulações são de uma beleza narrativa que levam o leitor a sorver o livro de uma assentada. Cada capítulo terminado é um pedido de inicio de leitura do seguinte. A noite deixou de ter horas e o sono foi-se acumulando. Não era possível interromper o fluido narrativo desta história passada no oriente, onde a sabedoria dum poeta mudo e a subserviência amedrontada dum homem, que para não sofrer quer ser invisível, culminam na trágica morte duma inocente criança que a única coisa que aspirava da vida era voar como os aviões. Vão surgindo histórias que se bordam no pano de fundo deste romance, que nos obrigam a reflectir nos domínios mais delicados da humanidade, a família, o amor, a religião, a vida e a morte.

O tempo escasseia-me e não sei se voltarei a Para onde vão os guarda-chuvas. Voltarei certamente a Afonso Cruz, que confesso, desconhecia-o até me ser oferecido este livro, mas comecei a considera-lo como um dos “Homens imprudentemente poéticos”.

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