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Lata de Conversas

Lata de Conversas

20
Mai18

Jazz no final da tarde... um agradável luxo

Paulo L

Foi num fim de tarde soalheiro de um sábado parecido com tantos outros, onde o cansaço da semana se começa a reflectir e a ideia de tranquilidade já se instalou, na varanda pequena mas simpática, com o ruído tranquilo da rua camuflado pela deliciosa sonoridade dos phones, que apreciei entusiasmado o recente álbum de originais de Elisa Rodrigues, As blue as red.

 

Numa primeira abordagem seria apenas para embalar a leitura de uma das muitas revistas que pacificamente vão  ficando à espera na mesa do escritório por melhor oportunidade. A entrevista a Boris Groys era o objectivo. A arte contemporânea o tema.

A abordagem complementar da música de tendência jazzística com a estética contemporânea, deveriam fundir-se numa metamorfose única onde sobressaísse o componente poético, factor primordial para o entrevistado.

 

E este componente poético começou a surgir na voz de Elisa Rodrigues, com alguma surpresa no primeiro tema, mas de forma crescente nos temas que se seguiram.

 

As primeiras perguntas da entrevista foram progressivamente substituídas pelas audições repetidas dos diferentes temas do álbum e, muito rapidamente, o meu repouso foi acompanhado pelo descanso da revista no meu colo. Não porque a entrevista não fosse interessante, mas porque a música era deliciosamente encantadora.

 

Foi uma descoberta ocasional, que muito tenho que agradecer à fortuita audição de um programa de rádio em que verdadeiros conhecedores da boa música conversavam.

 

Uma voz abrangente com uma tonalidade carregada de vários estilos acompanha a sonoridade instrumental num estilo de smooth jazz. Pelo menos é esta a minha interpretação. Em trabalhos anteriores é notório um jazz mais elaborado, mais trabalhado do ponto de vista musical, mas com a mesma dedicação e empenho vocais.

 

Repeti umas quantas vezes alguns temas.

 

 

 

 

 

28
Abr18

Tolstoi, Beethoven, Rose e ... Kreutzer

Paulo L

Um curto romance ou uma novela, como lhe queiramos chamar. Escrita simples, cuidada, meticulosamente pensada.  É assim A sonata de Kreutzer de Tolstoi.

 

Um diálogo que é mais um monólogo. Um cenário improvável, uma viagem de comboio. Numa carruagem onde os viajantes se acumulam, entram, ficam, partem. Ouvem mas não participam. Estão mas não estão presentes. Apenas o narrador permanece mas transformado em ouvinte. Não concorda nem discorda, vai lançando achas para uma conversa, a longos intervalos. As conversas iniciadas no principio da viagem foram rápida e progressivamente substituídas pelo monólogo prolífico do interveniente principal, Pozdnichev.

 

 Um tema estranho, com um pensamento invulgar. Um contexto peculiar. Mateus 5:13. “... todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela no seu coração.”

 

O homem devasso e a mulher prostituta. O casamento. A relação entre o homem e a mulher. O conhecimento, o namoro, o casamento, o divórcio. Os filhos. Os outros. O ciúme. As discussões e os arrependimentos. A submissão da mulher. A irracionalidade. Os temas que se vão mantendo sempre actuais.

 

A associação musical deste livro não poderia deixar de ser a Sonata para violino e piano nº9 em lá maior “Kreutzer"de Beethoven. Esta associação é muito curiosa. A sonata foi inicialmente dedicada e presenteada a George Bridgetower, um violinista polaco que visitou a Viena e privou com o compositor. Por uma discussão relativamente a uma mulher, Beethoven decide então entregar a sonata a Rodolphe Kreutzer, um velho amigo violinista francês. Talvez fosse este episódio que levou Tolstoi a considerar que a sonata tocada no seu livro pela mulher de Pozdnichev e pelo violinista fosse precisamente a sonata Kreutzer. Com o ciúme a embalar ambas as situações. O amante e a sua amada.

 

Mas esta sonata é também, em si, bizarra. É reconhecida a falta de equilíbrio e simetria entre os movimentos da peça. O virtuosismo é distribuído pelos dois instrumentos, a energia repartida ao longo dos três andamentos. O primeiro, Presto, em forma de sonata, é precedido por uma lenta introdução em Adagio Sostenuto. O segundo andamento, Andante com Variazionié um tema com variações e o último movimento, Presto, desenvolve-se em formato de sonata. Estes diferentes andamentos foram ligados usando os mesmos motivos e materiais ao longo de toda a peça criando um todo unificado.

 

Immortal Beloved é um filme biográfico. A vida e os amores de Beethoven. Após a sua morte e para cumprir uma vontade sua deixada em testamento, o seu amigo, confidente e secretário, procura a amada secreta de Beethoven, descrita apenas como Immortal Beloved. O filme suportado pelos constantes flashbacks vai enfatizando ficcionalmente muitos dos momentos mais emblemáticos e paradigmáticos da vida do compositor, e uma tentativa de busca interpretativa do seu estado mental. Foi realizado por Bernard Rose, tendo Gary Oldman assumido o papel do compositor.

Magnífico. A descrição da sonata por Beethoven, enquanto tocada por Bridgetower, é soberba. Não a ouvindo, sente-a e faz-nos sentir à sua maneira. O amor e o desespero. Não o traduzo para texto. Aconselho o filme.

 

Vale a pena o tempo dedicado a esta tríade de deslumbramento artístico, que  deve ser apreciada à exaustão e conjugada nos seus diferentes aspectos.

Valeu-me a pena este mês dedicado ao livro, que era o elo que me faltava do conjunto. Pena que o tempo não abunde, que o trabalho se sobreponha e que os livros, a música e o cinema tenham que estar sempre em plano menos primordial.

24
Mar18

Um azulejo mais para o painel

Paulo L

Se lhe falta alguma coisa é a tonalidade sonora de fundo que, como mais um azulejo do painel, completa a cena construída pouco a pouco, de uma história, mordaz na sua crítica e sensível na sua descrição, que atravessa a vida de dois homens e dos mais que os acompanham, escondidos na clandestinidade da ficção. Bem escrito, desenha cuidadosamente a “cidade “ e a “montanha”, em pinceladas seguras de traço elaborado. Lê-se nas linhas e percebe-se nas entrelinhas. Viaja-se de Portugal a França, do café à montanha, da sanidade à loucura, da vida à morte. Viaja-se ao longo das páginas apreciando-se o colar contínuo do novo azulejo que vai completando o painel.

Também um painel se forma em Magic Moments (3) com pinceladas que vão de Heinz Sauer & Michael Wollny a Rigmor Gustafsson & Jacky Terrasson Trio, chegando a Viktoria Tolstoy. Um conjunto menos ortodoxo mas numa linha igualmente ficcionada em que algumas peças se percebem também nas linhas e outras nas entrelinhas. Texto e música que sobrepõem num imaginário muito real. Vale a pena gastar tempo com O homem que escrevia azulejos de Álvaro Laborinho Lúcio.

26
Jan18

Hoje apeteceu-me ...

Paulo L

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João Carlos apreciava disfarçadamente o conteúdo escondido por trás do esforçado botão que, em número 2, descia pelo centro da camisa. Luísa da Conceição acomodava-se a jeito, fingindo não perceber. Na mesa em frente, do mesmo café de todos os dias, mais que os olhares trocados, era o silêncio cúmplice que se fazia ouvir. Habituais, outros clientes, não lhes passava despercebido o que só João e Luísa não queriam assumir. Parecendo distantes aproximavam-se em pequenos detalhes. As revistas de gadjets e os jornais desportivos foram sendo lentamente substituídos por romances da moda e progressivamente por autores de leitura complexa. Talvez assim a atenção de Luísa fosse despertada. Proust acompanhava-a havia algum tempo, embora o avançar das páginas não acompanhasse o tempo que dispunham em conjunto. Uma ou outra revista cor de rosa saía a medo da carteira e avidamente devorada com se de uma fome de semanas se tratasse. João Carlos empenhava-se a sério na leitura. Proust ia permanecendo mais pousado do que mexido. Sofria em silêncio o progressivo abandono mas ansiava o olhar ávido de João Carlos, que, a sucessões de dias, mais ia alternando o olhar entre o corajoso 2º botão e o Do lado de Swann, o primeiro dos 7 livros de Em busca do tempo perdido. Luísa da Conceição chorava o segundo nome, apostado em honra duma tia-avó que não chegou a tempo de madrinha pela trombose que a atacara 3 meses antes, já os preparativos iam longos e o dinheiro impossível de reaver. A recordação ficara inscrita mais do que o rosto presente, pois aos nove meses, nem Luísa da Conceição nem outra alma nascida, dele se poderia lembrar. João Carlos herdou o nome dos avós. Um já falecido na altura, o outro em boa actividade, que de marceneiro se ia entretendo até à esperada reforma, para depois continuar a fazer o mesmo. Dos longos dias de verão já ficava apenas uma lembrança e o anoitecer outonal, com as suas cores escarlates suavemente se transformava no escuro inverno onde apenas os candeeiros da rua viviam o alegre acender pelas seis da tarde, anunciando o recolher quase obrigatório que o frio, o vento e a chuva iam impondo. E foi numa dessas tardes, que um vento mais apressado, pousou com violência a sua mão destruidora no frágil guarda-chuva estampado a cores alegres em desenhos de flores que pretendia proteger Luísa da Conceição da miudinha chuva que do céu descia diáfana e penetrante. Foi com esmero que João Carlos se aproximou, vencendo a destruidora timidez que o impedia de ousados proveitos, e docemente ofereceu a sua companhia a troca do outro lado da sua umbrela. Apenas o tubo de madeira castanha os separava e o fino tecido preto raiado a cinzento claro os protegia. Rua abaixo, calados de inicio, ao longe foram desaparecendo numa dupla silhueta que se fundia na noite, não sem antes o último lampião mostrar as suas mãos entrelaçadas.

PL

 

06
Jan18

A neve, a sua terra e eu

Paulo L

A beleza inóspita da nevosa região do norte da costa oeste do Japão é o improvável cenário onde mais uma história de amor profundo e impossível ocorre, contada pelo punho poético da escrita de Kabawata.

Terra de Neve é, por isso, para ser lido. Já habituado à sua escrita, após Chá e Amor e Kyoto, continuo fascinado pela beleza descrita duma região longínqua e fria, onde o branco high-key fotográfico sombreado a neblina inunda o meu imaginário, onde vejo passar ao longe o contrastado colorido dos quimonos das gueixas, cujas faces se perdem na brancura da paisagem. O pormenor descritivo obriga a uma leitura cuidada, detendo-se em pequenos detalhes, que o leitor menos atento pode deixar escapar, mas que preenchem a narrativa harmoniosamente, qual detalhe musical, que por trás da melodia principal enche de sonoridade o texto. Sem nos esquecermos do local e da época, o que facilmente acontece porque Kawabata nos transporta a cada parágrafo, vamos apreciando a cultura, a tradição e o estilo de vida do interior montanhoso e, para muitos, inacessível. Transporta-nos com igual beleza para o coração duma jovem gueixa e para o seu amor impossível. Transporta-nos para uma complexa rede de sentimentos entre o impetuoso temperamento da gueixa e a contrastante serenidade do visitante. Transporta-nos também para a música de Gustav Mahler e para a sua Sinfonia nº 5. Podemos comparar a mistura de sentimentos ao convívio do alegre e do trágico soberbamente expostos nesta sinfonia. Ler os momentos mais íntimos ao som do adagietto e contrastando o 5º andamento com a deliciada descrição do incêndio no armazém dos casulos. O inicio da sinfonia (1º andamento) apresenta-nos a fria Terra de Neve, o inóspito clima e o jovem doente. E a completa modificação da transição para o segundo andamento encorpa a felicidade da gueixa com o regresso do seu visitante.

E numa tarde fria, onde Mahler e Kawabata se encontram, a conversa temperada com Pêra-Grave Reserva 2012 foi evoluindo num tom sereno.

23
Dez17

Música, apenas.

Paulo L

Chegaram as apetecidas duas horas de sossego, livres de qualquer actividade laboral ou de preparação da festividade natalícia, pelo que me sentei no sofá da sala, já gasto mas igualmente confortável, para ouvir um pouco do saxofone de Branford Marsalis. Desta vez optei por Songs of Mirth and Melancholy, com a participação de Joey Calderazzo. As peças sucedem-se numa alternância de emoções e o saxofone e o piano vão-se preenchendo e encaixando. Repousar ao som de The Bard Lachrymose e deliciar-me com o som de La Valse Kendall. Fechei os olhos e apreciei o momento. Deixei a música preencher a sala, vazia de tudo. Foi um momento meu. Foi o momento meu e da música. Marsalis e Calderazzo tocavam na minha sala e faziam-no para mim. Terminei com Bri’s Dance, num registo mais alegre onde o piano se vai desenvolvendo deixando a improvisação do saxofone entrar em contraponto. Ao longo do álbum vamos apreciando a subtileza melódica do saxofone soprano sobre a harmonia estruturada do piano, em alternâncias fabulosamente conseguidas e solos soberbos.

Este álbum é já de 2011, mas a sua sonoridade é intemporal. Foram os meus 50 minutos despojados de tudo e entregues à música.

15
Dez17

Gostava que o mar...

Paulo L

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 PL 

 

 

Gostava que o mar 

Me levasse para longe,

Onde não possa estar ao pé de ti.

Onde o luar não se visse,

Onde o coração chorasse por ti.

Onde os pássaros não cantassem,

Onde as árvores não florissem.

Onde a primavera não nascesse,

Onde as flores não abrissem.

 

Gostava que o mar

Me levasse para longe,

Me arrastasse para distante de ti.

Onde o sol não fosse de ouro,

Onde a terra não se pudesse abrir.

Onde os olhos não vissem tão longe,

Onde o meu pensamento não chegasse a ti.

 

Gostava que o mar

Me levasse para longe,

Onde não queira ouvir falar de ti.

Onde a música não tocasse,

Onde os sons não se ouvissem.

Onde a poesia não se dissesse

Onde o amor não existisse.

 

Gostava que o mar

Me levasse para longe,

Tão longe que fosse

Mesmo ao pé de ti.

PL

 

 

 

13
Dez17

Quem vê capas não vê corações

Paulo L

Aqui há uns dias e por causa de mais um dos habituais jantares de Natal, onde a solene troca de prendas, cada vez de mais baixo valor, que a conjectura actual assim obriga, associada à minha completa ineficácia nas suas escolhas, optei por comprar um livro. Procurei nas edições de bolso, onde se encontram algumas boas opções a preços mais compatíveis com o valor estipulado para a prenda em questão. A posterior distribuição por sorteio dificultava a escolha. Obrigava que o livro se adequasse a um leque diferente de pessoas, desde os claramente desinteressados pela literatura até aos assíduos leitores. Optei por Paulo Coelho, um autor de fácil leitura, com uma muito boa fluência de escrita. Escolhi Brida. Um livro sobre magia. Sobre a Tradição do Sol e a Tradição da Lua. A natureza, a sabedoria, o tempo. O bem e o mal. Mas é também um livro de paixões, de procura, do outro eu como alma gémea. Dos sete livros que li de Paulo Coelho recomendo três. Brida, o que mais me preencheu, seguido de O Alquimista e de O Diário de um Mago.

Não trago nenhuma novidade com estes livros, Paulo Coelho é um dos autores mais vendidos. Não digo nada já não dito sobre estes livros. Não acrescento muito sobre a qualidade descritiva do autor. Aconselho a leitura a quem ainda não os leu, eventualmente algumas releituras a quem, por ventura, não ficou muito satisfeito na primeira passagem. Mas há um propósito obscuro, já que estamos a falar de algum misticismo, ao trazer aqui Brida. A edição de bolso que encontrei tem uma capa que me fez pensar. É que se não considerasse este o melhor livro que li de Coelho, não o teria comprado para oferecer. Poucas foram as oportunidades de procurar por edições melhores, teria que ser um tiro certeiro porque o tempo escasseava. Peguei no livro, pousei o livro. Procurei outros, encontrei O Alquimista. Peguei nele. Pousei-o. Gostei mais de Brida. Mas aquela capa... Já aqui falei da importância das capas, da importância do tipo de letra, da importância do espaçamento entre as linhas. Se a montra não chama a atenção, não entramos na loja. Pode chamar a atenção por diversos motivos, pela cor, pela fotografia, pela sobriedade, pelo design... Pode o interior ser mau, mas come-se com os olhos. Agora se o frontispício não chama a atenção, já não se folheia. Este Brida que ofereci envergonhou-me ao ponto de sentir necessidade de justificar a escolha do livro. Infelizmente. No fundo, hoje, a propósito duma má capa falo de um bom livro e a propósito dum bom livro chamo a atenção para o prejuízo duma má capa.

24
Nov17

Deixemos apenas de existir, passemos também a viver

Paulo L

Na minha rotina diária de ver as capas dos jornais e lamentando o falecimento de João Ricardo, para mim um excelente actor, não pude ficar indiferente a uma frase de António Lobo Antunes que acompanhava a notícia e que transcrevo “Ninguém sabe o que é a morte, mas não faz muita diferença porque também nunca sabemos o que é a vida”. Concordo em absoluto. A definição de vida está longe de ser consensual e o conceito não poderia ser mais lato. Explicações das mais científicas às mais filosóficas vão-se enquadrando nas formas de ser e de pensar de cada um, que as entende como um objectivo, uma forma de estar, uma tempo de passagem, sei lá, um conjunto infindável de coisas. Embora a vida seja um assunto sério, acho que há muita gente que passa por ela sem pensar muito seriamente nela. Apenas tem o trabalho de existir, não o trabalho de viver. Ao andar por cá penso muitas vezes qual será o meu papel. Que grau de investimento devo ter naquilo que convencionalmente se chamou a vida pessoal, que grau de investimento devo ter na vida laboral. E a vida espiritual? O que é isso e onde se enquadra? Reflexivamente, viver é um processo complexo. Implica conjugar uma série de factores que por vezes são inconciliáveis. Oscar Wild dizia “Há momentos em que é preciso escolher entre viver a sua própria vida plenamente, inteiramente, completamente, ou assumir a existência degradante, ignóbil e falsa que o mundo, na sua hipocrisia, nos impõe. É uma realidade difícil de se concretizar. Saber quando e como. Mas não podemos fugir a esta dualidade. É onde entra o carácter. Camus disse um dia “Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado”. Conseguimos aqui fazer a distinção entre viver e existir. Viver uma vida sem significado não passa de meramente existir. Quando vamos ler a Correspondência de Florbela Espanca encontramos que “A vida é apenas isto: um encadeamento de acasos bons e maus, encadeamento sem lógica, nem razão;...” Virgílio Ferreira também dizia que “A nossa vida é toda ela feita de acasos”. Fernando Pessoa no Livro do desassossego escreve “A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.” A vida diz respeito a cada um. Querer viver ou simplesmente existir é uma opção. Eu gosto de viver, apesar de por vezes me apetecer apenas existir. Existir é mais fácil, é mais linear, é seguir uma linha curva que se desvia dos obstáculos, que foge aos problemas, que se afasta dos confrontos, despida de convicções e vontades, vazia de conteúdos. Como dizia Simone de Beauvoir “Viver é envelhecer, nada mais”. Não. Completo desacordo. Dom Quixote viveu uma vida plena. O Cavaleiro da triste figura soube viver. Lutou contra moinhos de vento, defendeu as suas crenças, transformou as suas ilusões em realidades. Não existiu, viveu. Concordo com Bertrand Russell quando diz que “A vida é demasiado curta para nos permitir interessar-nos por todas as coisas, mas é bom que nos interessemos por tantas quantas forem necessárias para preencher os nossos dias.” Nietzsche, Kierkegaard, Sartre, Agostinho da Silva, e muitos outros escreveram sobre a vida. Cada um com a sua forma de pensar. Todos eles viveram. Deixemos apenas de existir, passemos também a viver.

Iniciei este texto com o objectivo de falar de A morte de Ivan Ilitch de Tolstói, mas vai ficar para outro dia.

11
Nov17

Momentos

Paulo L

A vida é feita de momentos. Um dos momentos bons, que recordo com muita saudade, foi quando, entre outras e muitas coisas, me falaram de A tia Júlia e o escrevedor. Passaram uns anos mas o sentimento perdura. Ouço Fred Hersch ao piano Alone at the Vanguard enquanto vou passando em memória momentos e livros. E vou recordando A tia Júlia e o seu escrevedor. Hersch é um pianista e compositor de jazz. Ouço deliciado as suas obras e as suas improvisações sobre as obras de Monk e Blake...

O tempo vai passando. São mais as recordações que a vontade de escrever, mas A tia Júlia e o escrevedor assumem um papel preponderante. Há um realismo fantástico que se vai exacerbando com desenrolar da história. Um escritor que, para dar vida aos seus textos, vai encarnando o que escreve, ou até que encarna primeiro para escrever. E ao longo das suas histórias vai-se misturando cada vez mais com elas, ao ponto de ser ele a sua própria história. Enlouquece, confundindo enredos e personagens, mas os seus ouvintes aumentam com isso o seu apreço, adorando-o cada vez mais.

E a paixão pela tia Júlia, quase com o dobro da sua idade, do jovem protagonista de 18 anos, com quem acaba por ter uma relação amorosa. A candura e o encantamento. A luta familiar. O casamento. A amizade do jovem e do escrevedor. O desenrolar duma história achada por muitos autobiográfica, onde o real e o imaginário se confundem.

De uma leitura aparentemente fácil, que se vai complicando com o desenvolver da história, que mistura o real e o fantástico, associado a um fluir literário que aumenta a voracidade da leitura a cada capítulo que passa, esta obra de Mário Vargas Llosa é para se ir saboreando ao longo duma fria tarde de Outono, onde um encorpado tinto duriense acompanha com toda a perfeição.

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