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Lata de Conversas

Lata de Conversas

03
Dez18

Eça, porque não?

Paulo L

A obra de Eça de Queirós, na sua visão crítica duma sociedade sempre actual, que se repete a cada década, não se esvaziando de forma ou conteúdo e que cada época a preenche na sua plenitude mantendo um status quoinalterado, traduz a imutabilidade social e política de várias gerações que se vão sucedendo aparentemente num registo de mudança que se percebe apenas superficial.

 

De toda a sua obra, que com muito agrado fui lendo, nos muitos anos da minha juventude, e que agora me vão ficando serenas lembranças e sólidas recordações de críticas mordazes e histórias profundas, não posso deixar de realçar, por motivos diversos, A relíquia, o Alves e Companhia e Os Maias.

 

Se bem que tendo que escolher, a minha opção pendesse em A relíquia, onde Teodorico Raposo e D. Maria do Patrocínio protagonizam o mais brilhante dos romances de Eça, é a propósito de Os Maiasque vou gastar as próximas linhas.

 

De leitura obrigatória no Ensino Secundário, passou neste ano lectivo a obra opcional, podendo os Srs. Professores optarem, penso não estar errado, por outra obra do Autor, que pensem melhor se adequar à classe em questão. Como cumprem agora 130 anos de existência Os Maias(e Eça) são alvo da atenção da Fundação Calouste Gulbenkian, com honras de capa na Visão, o que felicito, cabendo a várias personalidades comentarem, num punhado de páginas, sob a pena de Sílvia Souto Cunha, a mestria do autor.

Em páginas separadas coube a Afonso Reis Cabral escrever uma Carta ao aluno que não lê “Os Maias”. Se quando ganhou o Prémio Leya achei  que a melhor forma que teve de o publicitar foi dizer que não ganhou por ser trineto de Eça, e não pelo livro em si, aqui já concordo em absoluto com o que escreve o Trineto. Quem fica a perder é quem não leu Os Maias. A descrição do Ramalhete não é uma seca, é uma descrição primorosa que só por si deveria ser escalpelizada obrigatoriamente nas aulas de português. E ao longo das três gerações da família, Eça vai mostrando uma sociedade que perdura para além do século XIX e que, em pleno século XXI, com roupagem moderna, está instalada e para ficar. Na sua linguagem intemporal Os Maiaspodiam ser qualquer família do centro de Lisboa, mas também do Porto ou de Coimbra, ou mesmo de Ponte de Lima, Viseu, Guarda ou Setúbal .

 

Já lá vão muitos anos desde que li Os Maias. Não me lembro se Carlos da Maia e Maria Eduarda apreciavam música. Apesar da escrita realista, fugida do período romântico, espelhando uma nova forma de modernidade descritiva, eu consideraria para acompanhamento o Concerto para Violino e Orquestra  de Max Bruch, um compositor alemão do período romântico.

 

 

 

23
Set18

A arte moderna e Eu ou A síndrome de atração - repulsão

Paulo L

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PL

 

A arte moderna surge num período de conceptualização, em que o relevo pictórico passa a um segundo plano. Como o conceito de arte é muito lato, muitas vezes para além daquilo que é perceptível, pelo menos por mim, passamos a uma circunstância em que a transmissão da ideia se concretiza num processo artístico sem que representação associada assuma uma estética canónica.

Observamos esta realidade duma forma transversal a todas as disciplinas artísticas. O compreender vai substituindo o gostar e a adopção da mensagem  como pertença partilhada assume-se como fundamental.

Pessoalmente, tenho dificuldade em entender este paradigma. Se entendo que é importante passar a mensagem, entendo também que a arte tem que ser representativa e pictórica.

Recentemente visitei a exposição “Arte e China após 1989”. Uma exposição colectiva de artistas de vários locais da China e do mundo, que, como é descrito, as suas provocações críticas visam forjar a realidade livre da ideologia, estabelecer o indivíduo à parte do coletivo e definir a experiência chinesa contemporânea em termos universais. Balizada pelo final da Guerra Fria em 1989 e pelos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 é analisada a cultura da experimentação artística durante um período caracterizado pelo início da globalização e o surgimento de uma China recentemente poderosa no cenário mundial.

Se consigo perceber a premência da liberalização do pensamento com uma exponenciação artística que extravasa a repressão dos muitos anos passados de ideologia unitária subjugada aos valores vigentes, não compreendo assim tão facilmente a pobreza da representação artística. A par da emanação conceptual   não se encontra a explosão imaginativa  requerida para a perenidade do motivo. E por isso, para mim não foi mais do que um grito passageiro de liberdade criativa que não figurará na história da arte contemporânea.

Talvez seja este tipo de representação que esteja a obrigar a uma progressiva transição para um pós-modernismo hiperrealista, já em voga, por exemplo, na pintura. Noutros segmentos como a música, encontramos ainda caminhos paralelos entre uma estética musical moderna, bem preparada, agradável de se acompanhar, albergando géneros que vão do jazz ao fado e outros que pretendem transmitir ideias e não belezas. Na literatura penso que esta fase já está ultrapassada e muitos dos autores contemporâneos estão a mostrar o muito bom que se está a escrever quer em riqueza linguística quer em diversificação temática.

On a smiling gust of windacompanhou-me na última hora, com a sua modernidade estética não conceptual, deixando-me, mais uma vez rendido à música de Florian Favre.

 

20
Ago18

Férias e livros

Paulo L

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O início das férias é sempre coincidente com o início de um livro. Por mera casualidade ou talvez por minuciosa subconsciente programação. Pena é não haver férias muitas vezes no ano para os livros se sucederem, como os meses se sucedem, a espaços conhecidos numa aprazível tranquilidade, sem sobressaltos nem contratempos e com muitos momentos bem vividos e saboreados.

Saio para descansar sempre acompanhado com um ou dois livros e uma ou duas revistas. Desta vez a escolha foi mais fácil porque já estava programada. O meu objectivo de férias, no que diz respeito às leituras, pois o resto são outras histórias que passam por cidades, museus, concertos, festas, romarias, praias, piscinas, esplanadas, caminhadas, cervejas e, sempre que possível, algum descanso, é livro e meio, se possível dois livros. Vou escrevendo algumas notas para o blogue, procurando novos livros e novas músicas, tentando perceber alguns acontecimentos da nossa história sediados nas terras por onde vou passando e, quando o tempo me ajuda, rabisco no computador os textos que vão saindo.

Hoje, sentado na varanda de um qualquer hotel, tendo entre mim e o mar apenas uma piscina e alguns metros de areia, roubando tempo aos preciosos mergulhos na ondulação meã entre a preia-mar (agora também dito praia-mar) e a baixa-mar, resolvi falar do livro que trouxe para me entreter quando o calor não aperta na praia ou a esplanada me presenteia uma gelada cerveja dum nome bizarro que as artesanais têm agora a mania de colocar.

Ainda a meio da leitura, apeteceu-me começar a falar dele porque, ainda pouco iniciado e já o tipo de escrita me estava a prender duma forma pouco habitual e de uma forma que há algum tempo um livro não me prendia assim. Não me interessa a veracidade histórica, interessa-me a estória do livro, interessa-me a forma como está escrita, interessa-me a narrativa, interessa-me a ligação dos personagens, interessa-me o conteúdo. Interessa-me acima de tudo que me surpreenda pela sua qualidade. Foi isso que aconteceu. Quem começa um livro assim, só poderá acabar melhor. Não acredito que com o continuar da leitura vá perder a qualidade. Antes pelo contrário, estou francamente convencido que vai ser sempre a melhorar. E estou tão agradavelmente surpreendido que me escusei de procurar comentários e apreciações ao livro. Simplesmente quero lê-lo ausente de influências. Refiro-me a “Os loucos da rua Mazur” de João Pinto Coelho.

Vou-me abstraindo do ruído que me envolve pela própria leitura. Às tantas já não há lugar para mais nada. Apenas para o texto que vai crescendo em forma e conteúdo. Intervalo-o comum ou dois goles da simpática loura gelada e nessas alturas aprecio também o mar. Calmo, com uma ou outra onda mais destemida, azul claro e luminoso. Que bonito está. Que contrastante com o dilúvio de emoções que o livro transborda.

Fico na dúvida se me apetece ouvir o Concerto para violino e orquestra de Tchaikovsky ou a Sinfonia nº 5de Gustav Mahler. Talvez mais algumas páginas do livro ou o evoluir das ondas do mar me dissipem a duvida.

 

13
Jul18

As críticas! Hum!

Paulo L

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Quando lemos um romance pretendemos pelo menos duas coisas, que nos toque emocionalmente e que esteticamente reúna um conjunto de características que o tornem belo, pelo menos para os nossos padrões enquanto leitores. Isto leva a que textos não muito atraentes esteticamente mas com uma ligação emocional com o leitor sejam bastante apreciados e temas que habitualmente não seriam procurados, pela sua beleza literária são bastante lidos.

Há livros para as quatro variantes. Os que nos tocam e são bem escritos, os que nos tocam e não estão tão bem escritos, os que não nos tocam mas estão muito bem escritos e os que não nos tocam nem estão bem escritos.

Há a publicidade. Todos os livros publicados são muito bons. Estão todos muito bem escritos. São de uma profundidade arrepiante. Tocam todos os nossos sentidos. O escritor é a maior revelação de todos os tempos ou estamos perante a consagração e re-consagração dos já consagrados.

Talvez seja necessário inventar mais prémios literários. Todos os escritores merecem pelo menos dois. Muitos já ganharam prémios, uns internacionais, outros lá da paróquia, quem sabe, até talvez prémios atribuídos nas reuniões do condomínio.

 

“Uma voz narrativa que parece capaz de todas as proezas estilísticas” li na badana dum livro, entre outros abonatórios comentários. Fiquei logo entusiasmado. Um livro bem escrito com um tema que me é querido, a arte, a pintura, os quadros...

Comprei o livro e li-o. O meu entusiasmo foi-se desvanecendo ao longo da leitura. Uma história crítica da sociedade onde, metidos à pressão, eram descritos quadros e vidas de pintores. Talvez eu consiga construir um livro. Reúno meia dúzia de quadros, descrevo-os, escrevo excertos da vida dos autores e vou alternando com episódios da vida quotidiana.  Digo mal dalgumas instituições e meto pelo meio uma história de amor. Acrescento duas ou três situações trágicas.

Cozo em lume brando e deixo repousar. Quem sabe, uma redução em vinho tinto. Amacia a leitura dando-lhe um toque a frutos vermelhos e um final de boca com madeiras. Tudo aquilo que me faltou no “O nervo ótico” de María Gainza.

 

Como se costuma dizer, não há bela sem senão e, se o que escrevi foi o senão, deixem-me passar à bela.

 

Há muitos anos, talvez a rondar os 20, apaixonei-me por um livro, se é que nos podemos apaixonar por livros, que relembro amiúde. Um conto fabuloso de Robert James Waller, de 1992 e publicado em Portugal em 1995. Apesar de inicialmente não ter sido muito aplaudido pela crítica literária, foi em 1995 adaptado ao cinema, com realização de Clint Eastwood, que também o protagonizou ao lado de Meryl Streep. Pois, este não tinha grandes críticas, a badana não o valorizava tanto. Mas o miolo... era doutra cepa.

A velha discussão sempre presente nestas adaptações. O livro é sempre melhor que o filme? Aqui não se põe. São os dois fabulosos. E agora que está a haver uma moda livreira de reedições de clássicos, aconselho vivamente a leitura do livro. É claro que estou a falar de “As pontes de Madison County” .

 

20
Mai18

Jazz no final da tarde... um agradável luxo

Paulo L

Foi num fim de tarde soalheiro de um sábado parecido com tantos outros, onde o cansaço da semana se começa a reflectir e a ideia de tranquilidade já se instalou, na varanda pequena mas simpática, com o ruído tranquilo da rua camuflado pela deliciosa sonoridade dos phones, que apreciei entusiasmado o recente álbum de originais de Elisa Rodrigues, As blue as red.

 

Numa primeira abordagem seria apenas para embalar a leitura de uma das muitas revistas que pacificamente vão  ficando à espera na mesa do escritório por melhor oportunidade. A entrevista a Boris Groys era o objectivo. A arte contemporânea o tema.

A abordagem complementar da música de tendência jazzística com a estética contemporânea, deveriam fundir-se numa metamorfose única onde sobressaísse o componente poético, factor primordial para o entrevistado.

 

E este componente poético começou a surgir na voz de Elisa Rodrigues, com alguma surpresa no primeiro tema, mas de forma crescente nos temas que se seguiram.

 

As primeiras perguntas da entrevista foram progressivamente substituídas pelas audições repetidas dos diferentes temas do álbum e, muito rapidamente, o meu repouso foi acompanhado pelo descanso da revista no meu colo. Não porque a entrevista não fosse interessante, mas porque a música era deliciosamente encantadora.

 

Foi uma descoberta ocasional, que muito tenho que agradecer à fortuita audição de um programa de rádio em que verdadeiros conhecedores da boa música conversavam.

 

Uma voz abrangente com uma tonalidade carregada de vários estilos acompanha a sonoridade instrumental num estilo de smooth jazz. Pelo menos é esta a minha interpretação. Em trabalhos anteriores é notório um jazz mais elaborado, mais trabalhado do ponto de vista musical, mas com a mesma dedicação e empenho vocais.

 

Repeti umas quantas vezes alguns temas.

 

 

 

 

 

28
Abr18

Tolstoi, Beethoven, Rose e ... Kreutzer

Paulo L

Um curto romance ou uma novela, como lhe queiramos chamar. Escrita simples, cuidada, meticulosamente pensada.  É assim A sonata de Kreutzer de Tolstoi.

 

Um diálogo que é mais um monólogo. Um cenário improvável, uma viagem de comboio. Numa carruagem onde os viajantes se acumulam, entram, ficam, partem. Ouvem mas não participam. Estão mas não estão presentes. Apenas o narrador permanece mas transformado em ouvinte. Não concorda nem discorda, vai lançando achas para uma conversa, a longos intervalos. As conversas iniciadas no principio da viagem foram rápida e progressivamente substituídas pelo monólogo prolífico do interveniente principal, Pozdnichev.

 

 Um tema estranho, com um pensamento invulgar. Um contexto peculiar. Mateus 5:13. “... todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela no seu coração.”

 

O homem devasso e a mulher prostituta. O casamento. A relação entre o homem e a mulher. O conhecimento, o namoro, o casamento, o divórcio. Os filhos. Os outros. O ciúme. As discussões e os arrependimentos. A submissão da mulher. A irracionalidade. Os temas que se vão mantendo sempre actuais.

 

A associação musical deste livro não poderia deixar de ser a Sonata para violino e piano nº9 em lá maior “Kreutzer"de Beethoven. Esta associação é muito curiosa. A sonata foi inicialmente dedicada e presenteada a George Bridgetower, um violinista polaco que visitou a Viena e privou com o compositor. Por uma discussão relativamente a uma mulher, Beethoven decide então entregar a sonata a Rodolphe Kreutzer, um velho amigo violinista francês. Talvez fosse este episódio que levou Tolstoi a considerar que a sonata tocada no seu livro pela mulher de Pozdnichev e pelo violinista fosse precisamente a sonata Kreutzer. Com o ciúme a embalar ambas as situações. O amante e a sua amada.

 

Mas esta sonata é também, em si, bizarra. É reconhecida a falta de equilíbrio e simetria entre os movimentos da peça. O virtuosismo é distribuído pelos dois instrumentos, a energia repartida ao longo dos três andamentos. O primeiro, Presto, em forma de sonata, é precedido por uma lenta introdução em Adagio Sostenuto. O segundo andamento, Andante com Variazionié um tema com variações e o último movimento, Presto, desenvolve-se em formato de sonata. Estes diferentes andamentos foram ligados usando os mesmos motivos e materiais ao longo de toda a peça criando um todo unificado.

 

Immortal Beloved é um filme biográfico. A vida e os amores de Beethoven. Após a sua morte e para cumprir uma vontade sua deixada em testamento, o seu amigo, confidente e secretário, procura a amada secreta de Beethoven, descrita apenas como Immortal Beloved. O filme suportado pelos constantes flashbacks vai enfatizando ficcionalmente muitos dos momentos mais emblemáticos e paradigmáticos da vida do compositor, e uma tentativa de busca interpretativa do seu estado mental. Foi realizado por Bernard Rose, tendo Gary Oldman assumido o papel do compositor.

Magnífico. A descrição da sonata por Beethoven, enquanto tocada por Bridgetower, é soberba. Não a ouvindo, sente-a e faz-nos sentir à sua maneira. O amor e o desespero. Não o traduzo para texto. Aconselho o filme.

 

Vale a pena o tempo dedicado a esta tríade de deslumbramento artístico, que  deve ser apreciada à exaustão e conjugada nos seus diferentes aspectos.

Valeu-me a pena este mês dedicado ao livro, que era o elo que me faltava do conjunto. Pena que o tempo não abunde, que o trabalho se sobreponha e que os livros, a música e o cinema tenham que estar sempre em plano menos primordial.

24
Mar18

Um azulejo mais para o painel

Paulo L

Se lhe falta alguma coisa é a tonalidade sonora de fundo que, como mais um azulejo do painel, completa a cena construída pouco a pouco, de uma história, mordaz na sua crítica e sensível na sua descrição, que atravessa a vida de dois homens e dos mais que os acompanham, escondidos na clandestinidade da ficção. Bem escrito, desenha cuidadosamente a “cidade “ e a “montanha”, em pinceladas seguras de traço elaborado. Lê-se nas linhas e percebe-se nas entrelinhas. Viaja-se de Portugal a França, do café à montanha, da sanidade à loucura, da vida à morte. Viaja-se ao longo das páginas apreciando-se o colar contínuo do novo azulejo que vai completando o painel.

Também um painel se forma em Magic Moments (3) com pinceladas que vão de Heinz Sauer & Michael Wollny a Rigmor Gustafsson & Jacky Terrasson Trio, chegando a Viktoria Tolstoy. Um conjunto menos ortodoxo mas numa linha igualmente ficcionada em que algumas peças se percebem também nas linhas e outras nas entrelinhas. Texto e música que sobrepõem num imaginário muito real. Vale a pena gastar tempo com O homem que escrevia azulejos de Álvaro Laborinho Lúcio.

26
Jan18

Hoje apeteceu-me ...

Paulo L

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João Carlos apreciava disfarçadamente o conteúdo escondido por trás do esforçado botão que, em número 2, descia pelo centro da camisa. Luísa da Conceição acomodava-se a jeito, fingindo não perceber. Na mesa em frente, do mesmo café de todos os dias, mais que os olhares trocados, era o silêncio cúmplice que se fazia ouvir. Habituais, outros clientes, não lhes passava despercebido o que só João e Luísa não queriam assumir. Parecendo distantes aproximavam-se em pequenos detalhes. As revistas de gadjets e os jornais desportivos foram sendo lentamente substituídos por romances da moda e progressivamente por autores de leitura complexa. Talvez assim a atenção de Luísa fosse despertada. Proust acompanhava-a havia algum tempo, embora o avançar das páginas não acompanhasse o tempo que dispunham em conjunto. Uma ou outra revista cor de rosa saía a medo da carteira e avidamente devorada com se de uma fome de semanas se tratasse. João Carlos empenhava-se a sério na leitura. Proust ia permanecendo mais pousado do que mexido. Sofria em silêncio o progressivo abandono mas ansiava o olhar ávido de João Carlos, que, a sucessões de dias, mais ia alternando o olhar entre o corajoso 2º botão e o Do lado de Swann, o primeiro dos 7 livros de Em busca do tempo perdido. Luísa da Conceição chorava o segundo nome, apostado em honra duma tia-avó que não chegou a tempo de madrinha pela trombose que a atacara 3 meses antes, já os preparativos iam longos e o dinheiro impossível de reaver. A recordação ficara inscrita mais do que o rosto presente, pois aos nove meses, nem Luísa da Conceição nem outra alma nascida, dele se poderia lembrar. João Carlos herdou o nome dos avós. Um já falecido na altura, o outro em boa actividade, que de marceneiro se ia entretendo até à esperada reforma, para depois continuar a fazer o mesmo. Dos longos dias de verão já ficava apenas uma lembrança e o anoitecer outonal, com as suas cores escarlates suavemente se transformava no escuro inverno onde apenas os candeeiros da rua viviam o alegre acender pelas seis da tarde, anunciando o recolher quase obrigatório que o frio, o vento e a chuva iam impondo. E foi numa dessas tardes, que um vento mais apressado, pousou com violência a sua mão destruidora no frágil guarda-chuva estampado a cores alegres em desenhos de flores que pretendia proteger Luísa da Conceição da miudinha chuva que do céu descia diáfana e penetrante. Foi com esmero que João Carlos se aproximou, vencendo a destruidora timidez que o impedia de ousados proveitos, e docemente ofereceu a sua companhia a troca do outro lado da sua umbrela. Apenas o tubo de madeira castanha os separava e o fino tecido preto raiado a cinzento claro os protegia. Rua abaixo, calados de inicio, ao longe foram desaparecendo numa dupla silhueta que se fundia na noite, não sem antes o último lampião mostrar as suas mãos entrelaçadas.

PL

 

06
Jan18

A neve, a sua terra e eu

Paulo L

A beleza inóspita da nevosa região do norte da costa oeste do Japão é o improvável cenário onde mais uma história de amor profundo e impossível ocorre, contada pelo punho poético da escrita de Kabawata.

Terra de Neve é, por isso, para ser lido. Já habituado à sua escrita, após Chá e Amor e Kyoto, continuo fascinado pela beleza descrita duma região longínqua e fria, onde o branco high-key fotográfico sombreado a neblina inunda o meu imaginário, onde vejo passar ao longe o contrastado colorido dos quimonos das gueixas, cujas faces se perdem na brancura da paisagem. O pormenor descritivo obriga a uma leitura cuidada, detendo-se em pequenos detalhes, que o leitor menos atento pode deixar escapar, mas que preenchem a narrativa harmoniosamente, qual detalhe musical, que por trás da melodia principal enche de sonoridade o texto. Sem nos esquecermos do local e da época, o que facilmente acontece porque Kawabata nos transporta a cada parágrafo, vamos apreciando a cultura, a tradição e o estilo de vida do interior montanhoso e, para muitos, inacessível. Transporta-nos com igual beleza para o coração duma jovem gueixa e para o seu amor impossível. Transporta-nos para uma complexa rede de sentimentos entre o impetuoso temperamento da gueixa e a contrastante serenidade do visitante. Transporta-nos também para a música de Gustav Mahler e para a sua Sinfonia nº 5. Podemos comparar a mistura de sentimentos ao convívio do alegre e do trágico soberbamente expostos nesta sinfonia. Ler os momentos mais íntimos ao som do adagietto e contrastando o 5º andamento com a deliciada descrição do incêndio no armazém dos casulos. O inicio da sinfonia (1º andamento) apresenta-nos a fria Terra de Neve, o inóspito clima e o jovem doente. E a completa modificação da transição para o segundo andamento encorpa a felicidade da gueixa com o regresso do seu visitante.

E numa tarde fria, onde Mahler e Kawabata se encontram, a conversa temperada com Pêra-Grave Reserva 2012 foi evoluindo num tom sereno.

23
Dez17

Música, apenas.

Paulo L

Chegaram as apetecidas duas horas de sossego, livres de qualquer actividade laboral ou de preparação da festividade natalícia, pelo que me sentei no sofá da sala, já gasto mas igualmente confortável, para ouvir um pouco do saxofone de Branford Marsalis. Desta vez optei por Songs of Mirth and Melancholy, com a participação de Joey Calderazzo. As peças sucedem-se numa alternância de emoções e o saxofone e o piano vão-se preenchendo e encaixando. Repousar ao som de The Bard Lachrymose e deliciar-me com o som de La Valse Kendall. Fechei os olhos e apreciei o momento. Deixei a música preencher a sala, vazia de tudo. Foi um momento meu. Foi o momento meu e da música. Marsalis e Calderazzo tocavam na minha sala e faziam-no para mim. Terminei com Bri’s Dance, num registo mais alegre onde o piano se vai desenvolvendo deixando a improvisação do saxofone entrar em contraponto. Ao longo do álbum vamos apreciando a subtileza melódica do saxofone soprano sobre a harmonia estruturada do piano, em alternâncias fabulosamente conseguidas e solos soberbos.

Este álbum é já de 2011, mas a sua sonoridade é intemporal. Foram os meus 50 minutos despojados de tudo e entregues à música.

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