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Lata de Conversas

Lata de Conversas

20
Ago18

Férias e livros

Paulo L

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O início das férias é sempre coincidente com o início de um livro. Por mera casualidade ou talvez por minuciosa subconsciente programação. Pena é não haver férias muitas vezes no ano para os livros se sucederem, como os meses se sucedem, a espaços conhecidos numa aprazível tranquilidade, sem sobressaltos nem contratempos e com muitos momentos bem vividos e saboreados.

Saio para descansar sempre acompanhado com um ou dois livros e uma ou duas revistas. Desta vez a escolha foi mais fácil porque já estava programada. O meu objectivo de férias, no que diz respeito às leituras, pois o resto são outras histórias que passam por cidades, museus, concertos, festas, romarias, praias, piscinas, esplanadas, caminhadas, cervejas e, sempre que possível, algum descanso, é livro e meio, se possível dois livros. Vou escrevendo algumas notas para o blogue, procurando novos livros e novas músicas, tentando perceber alguns acontecimentos da nossa história sediados nas terras por onde vou passando e, quando o tempo me ajuda, rabisco no computador os textos que vão saindo.

Hoje, sentado na varanda de um qualquer hotel, tendo entre mim e o mar apenas uma piscina e alguns metros de areia, roubando tempo aos preciosos mergulhos na ondulação meã entre a preia-mar (agora também dito praia-mar) e a baixa-mar, resolvi falar do livro que trouxe para me entreter quando o calor não aperta na praia ou a esplanada me presenteia uma gelada cerveja dum nome bizarro que as artesanais têm agora a mania de colocar.

Ainda a meio da leitura, apeteceu-me começar a falar dele porque, ainda pouco iniciado e já o tipo de escrita me estava a prender duma forma pouco habitual e de uma forma que há algum tempo um livro não me prendia assim. Não me interessa a veracidade histórica, interessa-me a estória do livro, interessa-me a forma como está escrita, interessa-me a narrativa, interessa-me a ligação dos personagens, interessa-me o conteúdo. Interessa-me acima de tudo que me surpreenda pela sua qualidade. Foi isso que aconteceu. Quem começa um livro assim, só poderá acabar melhor. Não acredito que com o continuar da leitura vá perder a qualidade. Antes pelo contrário, estou francamente convencido que vai ser sempre a melhorar. E estou tão agradavelmente surpreendido que me escusei de procurar comentários e apreciações ao livro. Simplesmente quero lê-lo ausente de influências. Refiro-me a “Os loucos da rua Mazur” de João Pinto Coelho.

Vou-me abstraindo do ruído que me envolve pela própria leitura. Às tantas já não há lugar para mais nada. Apenas para o texto que vai crescendo em forma e conteúdo. Intervalo-o comum ou dois goles da simpática loura gelada e nessas alturas aprecio também o mar. Calmo, com uma ou outra onda mais destemida, azul claro e luminoso. Que bonito está. Que contrastante com o dilúvio de emoções que o livro transborda.

Fico na dúvida se me apetece ouvir o Concerto para violino e orquestra de Tchaikovsky ou a Sinfonia nº 5de Gustav Mahler. Talvez mais algumas páginas do livro ou o evoluir das ondas do mar me dissipem a duvida.

 

13
Jul18

As críticas! Hum!

Paulo L

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Quando lemos um romance pretendemos pelo menos duas coisas, que nos toque emocionalmente e que esteticamente reúna um conjunto de características que o tornem belo, pelo menos para os nossos padrões enquanto leitores. Isto leva a que textos não muito atraentes esteticamente mas com uma ligação emocional com o leitor sejam bastante apreciados e temas que habitualmente não seriam procurados, pela sua beleza literária são bastante lidos.

Há livros para as quatro variantes. Os que nos tocam e são bem escritos, os que nos tocam e não estão tão bem escritos, os que não nos tocam mas estão muito bem escritos e os que não nos tocam nem estão bem escritos.

Há a publicidade. Todos os livros publicados são muito bons. Estão todos muito bem escritos. São de uma profundidade arrepiante. Tocam todos os nossos sentidos. O escritor é a maior revelação de todos os tempos ou estamos perante a consagração e re-consagração dos já consagrados.

Talvez seja necessário inventar mais prémios literários. Todos os escritores merecem pelo menos dois. Muitos já ganharam prémios, uns internacionais, outros lá da paróquia, quem sabe, até talvez prémios atribuídos nas reuniões do condomínio.

 

“Uma voz narrativa que parece capaz de todas as proezas estilísticas” li na badana dum livro, entre outros abonatórios comentários. Fiquei logo entusiasmado. Um livro bem escrito com um tema que me é querido, a arte, a pintura, os quadros...

Comprei o livro e li-o. O meu entusiasmo foi-se desvanecendo ao longo da leitura. Uma história crítica da sociedade onde, metidos à pressão, eram descritos quadros e vidas de pintores. Talvez eu consiga construir um livro. Reúno meia dúzia de quadros, descrevo-os, escrevo excertos da vida dos autores e vou alternando com episódios da vida quotidiana.  Digo mal dalgumas instituições e meto pelo meio uma história de amor. Acrescento duas ou três situações trágicas.

Cozo em lume brando e deixo repousar. Quem sabe, uma redução em vinho tinto. Amacia a leitura dando-lhe um toque a frutos vermelhos e um final de boca com madeiras. Tudo aquilo que me faltou no “O nervo ótico” de María Gainza.

 

Como se costuma dizer, não há bela sem senão e, se o que escrevi foi o senão, deixem-me passar à bela.

 

Há muitos anos, talvez a rondar os 20, apaixonei-me por um livro, se é que nos podemos apaixonar por livros, que relembro amiúde. Um conto fabuloso de Robert James Waller, de 1992 e publicado em Portugal em 1995. Apesar de inicialmente não ter sido muito aplaudido pela crítica literária, foi em 1995 adaptado ao cinema, com realização de Clint Eastwood, que também o protagonizou ao lado de Meryl Streep. Pois, este não tinha grandes críticas, a badana não o valorizava tanto. Mas o miolo... era doutra cepa.

A velha discussão sempre presente nestas adaptações. O livro é sempre melhor que o filme? Aqui não se põe. São os dois fabulosos. E agora que está a haver uma moda livreira de reedições de clássicos, aconselho vivamente a leitura do livro. É claro que estou a falar de “As pontes de Madison County” .

 

20
Mai18

Jazz no final da tarde... um agradável luxo

Paulo L

Foi num fim de tarde soalheiro de um sábado parecido com tantos outros, onde o cansaço da semana se começa a reflectir e a ideia de tranquilidade já se instalou, na varanda pequena mas simpática, com o ruído tranquilo da rua camuflado pela deliciosa sonoridade dos phones, que apreciei entusiasmado o recente álbum de originais de Elisa Rodrigues, As blue as red.

 

Numa primeira abordagem seria apenas para embalar a leitura de uma das muitas revistas que pacificamente vão  ficando à espera na mesa do escritório por melhor oportunidade. A entrevista a Boris Groys era o objectivo. A arte contemporânea o tema.

A abordagem complementar da música de tendência jazzística com a estética contemporânea, deveriam fundir-se numa metamorfose única onde sobressaísse o componente poético, factor primordial para o entrevistado.

 

E este componente poético começou a surgir na voz de Elisa Rodrigues, com alguma surpresa no primeiro tema, mas de forma crescente nos temas que se seguiram.

 

As primeiras perguntas da entrevista foram progressivamente substituídas pelas audições repetidas dos diferentes temas do álbum e, muito rapidamente, o meu repouso foi acompanhado pelo descanso da revista no meu colo. Não porque a entrevista não fosse interessante, mas porque a música era deliciosamente encantadora.

 

Foi uma descoberta ocasional, que muito tenho que agradecer à fortuita audição de um programa de rádio em que verdadeiros conhecedores da boa música conversavam.

 

Uma voz abrangente com uma tonalidade carregada de vários estilos acompanha a sonoridade instrumental num estilo de smooth jazz. Pelo menos é esta a minha interpretação. Em trabalhos anteriores é notório um jazz mais elaborado, mais trabalhado do ponto de vista musical, mas com a mesma dedicação e empenho vocais.

 

Repeti umas quantas vezes alguns temas.

 

 

 

 

 

28
Abr18

Tolstoi, Beethoven, Rose e ... Kreutzer

Paulo L

Um curto romance ou uma novela, como lhe queiramos chamar. Escrita simples, cuidada, meticulosamente pensada.  É assim A sonata de Kreutzer de Tolstoi.

 

Um diálogo que é mais um monólogo. Um cenário improvável, uma viagem de comboio. Numa carruagem onde os viajantes se acumulam, entram, ficam, partem. Ouvem mas não participam. Estão mas não estão presentes. Apenas o narrador permanece mas transformado em ouvinte. Não concorda nem discorda, vai lançando achas para uma conversa, a longos intervalos. As conversas iniciadas no principio da viagem foram rápida e progressivamente substituídas pelo monólogo prolífico do interveniente principal, Pozdnichev.

 

 Um tema estranho, com um pensamento invulgar. Um contexto peculiar. Mateus 5:13. “... todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela no seu coração.”

 

O homem devasso e a mulher prostituta. O casamento. A relação entre o homem e a mulher. O conhecimento, o namoro, o casamento, o divórcio. Os filhos. Os outros. O ciúme. As discussões e os arrependimentos. A submissão da mulher. A irracionalidade. Os temas que se vão mantendo sempre actuais.

 

A associação musical deste livro não poderia deixar de ser a Sonata para violino e piano nº9 em lá maior “Kreutzer"de Beethoven. Esta associação é muito curiosa. A sonata foi inicialmente dedicada e presenteada a George Bridgetower, um violinista polaco que visitou a Viena e privou com o compositor. Por uma discussão relativamente a uma mulher, Beethoven decide então entregar a sonata a Rodolphe Kreutzer, um velho amigo violinista francês. Talvez fosse este episódio que levou Tolstoi a considerar que a sonata tocada no seu livro pela mulher de Pozdnichev e pelo violinista fosse precisamente a sonata Kreutzer. Com o ciúme a embalar ambas as situações. O amante e a sua amada.

 

Mas esta sonata é também, em si, bizarra. É reconhecida a falta de equilíbrio e simetria entre os movimentos da peça. O virtuosismo é distribuído pelos dois instrumentos, a energia repartida ao longo dos três andamentos. O primeiro, Presto, em forma de sonata, é precedido por uma lenta introdução em Adagio Sostenuto. O segundo andamento, Andante com Variazionié um tema com variações e o último movimento, Presto, desenvolve-se em formato de sonata. Estes diferentes andamentos foram ligados usando os mesmos motivos e materiais ao longo de toda a peça criando um todo unificado.

 

Immortal Beloved é um filme biográfico. A vida e os amores de Beethoven. Após a sua morte e para cumprir uma vontade sua deixada em testamento, o seu amigo, confidente e secretário, procura a amada secreta de Beethoven, descrita apenas como Immortal Beloved. O filme suportado pelos constantes flashbacks vai enfatizando ficcionalmente muitos dos momentos mais emblemáticos e paradigmáticos da vida do compositor, e uma tentativa de busca interpretativa do seu estado mental. Foi realizado por Bernard Rose, tendo Gary Oldman assumido o papel do compositor.

Magnífico. A descrição da sonata por Beethoven, enquanto tocada por Bridgetower, é soberba. Não a ouvindo, sente-a e faz-nos sentir à sua maneira. O amor e o desespero. Não o traduzo para texto. Aconselho o filme.

 

Vale a pena o tempo dedicado a esta tríade de deslumbramento artístico, que  deve ser apreciada à exaustão e conjugada nos seus diferentes aspectos.

Valeu-me a pena este mês dedicado ao livro, que era o elo que me faltava do conjunto. Pena que o tempo não abunde, que o trabalho se sobreponha e que os livros, a música e o cinema tenham que estar sempre em plano menos primordial.

24
Mar18

Um azulejo mais para o painel

Paulo L

Se lhe falta alguma coisa é a tonalidade sonora de fundo que, como mais um azulejo do painel, completa a cena construída pouco a pouco, de uma história, mordaz na sua crítica e sensível na sua descrição, que atravessa a vida de dois homens e dos mais que os acompanham, escondidos na clandestinidade da ficção. Bem escrito, desenha cuidadosamente a “cidade “ e a “montanha”, em pinceladas seguras de traço elaborado. Lê-se nas linhas e percebe-se nas entrelinhas. Viaja-se de Portugal a França, do café à montanha, da sanidade à loucura, da vida à morte. Viaja-se ao longo das páginas apreciando-se o colar contínuo do novo azulejo que vai completando o painel.

Também um painel se forma em Magic Moments (3) com pinceladas que vão de Heinz Sauer & Michael Wollny a Rigmor Gustafsson & Jacky Terrasson Trio, chegando a Viktoria Tolstoy. Um conjunto menos ortodoxo mas numa linha igualmente ficcionada em que algumas peças se percebem também nas linhas e outras nas entrelinhas. Texto e música que sobrepõem num imaginário muito real. Vale a pena gastar tempo com O homem que escrevia azulejos de Álvaro Laborinho Lúcio.

26
Jan18

Hoje apeteceu-me ...

Paulo L

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João Carlos apreciava disfarçadamente o conteúdo escondido por trás do esforçado botão que, em número 2, descia pelo centro da camisa. Luísa da Conceição acomodava-se a jeito, fingindo não perceber. Na mesa em frente, do mesmo café de todos os dias, mais que os olhares trocados, era o silêncio cúmplice que se fazia ouvir. Habituais, outros clientes, não lhes passava despercebido o que só João e Luísa não queriam assumir. Parecendo distantes aproximavam-se em pequenos detalhes. As revistas de gadjets e os jornais desportivos foram sendo lentamente substituídos por romances da moda e progressivamente por autores de leitura complexa. Talvez assim a atenção de Luísa fosse despertada. Proust acompanhava-a havia algum tempo, embora o avançar das páginas não acompanhasse o tempo que dispunham em conjunto. Uma ou outra revista cor de rosa saía a medo da carteira e avidamente devorada com se de uma fome de semanas se tratasse. João Carlos empenhava-se a sério na leitura. Proust ia permanecendo mais pousado do que mexido. Sofria em silêncio o progressivo abandono mas ansiava o olhar ávido de João Carlos, que, a sucessões de dias, mais ia alternando o olhar entre o corajoso 2º botão e o Do lado de Swann, o primeiro dos 7 livros de Em busca do tempo perdido. Luísa da Conceição chorava o segundo nome, apostado em honra duma tia-avó que não chegou a tempo de madrinha pela trombose que a atacara 3 meses antes, já os preparativos iam longos e o dinheiro impossível de reaver. A recordação ficara inscrita mais do que o rosto presente, pois aos nove meses, nem Luísa da Conceição nem outra alma nascida, dele se poderia lembrar. João Carlos herdou o nome dos avós. Um já falecido na altura, o outro em boa actividade, que de marceneiro se ia entretendo até à esperada reforma, para depois continuar a fazer o mesmo. Dos longos dias de verão já ficava apenas uma lembrança e o anoitecer outonal, com as suas cores escarlates suavemente se transformava no escuro inverno onde apenas os candeeiros da rua viviam o alegre acender pelas seis da tarde, anunciando o recolher quase obrigatório que o frio, o vento e a chuva iam impondo. E foi numa dessas tardes, que um vento mais apressado, pousou com violência a sua mão destruidora no frágil guarda-chuva estampado a cores alegres em desenhos de flores que pretendia proteger Luísa da Conceição da miudinha chuva que do céu descia diáfana e penetrante. Foi com esmero que João Carlos se aproximou, vencendo a destruidora timidez que o impedia de ousados proveitos, e docemente ofereceu a sua companhia a troca do outro lado da sua umbrela. Apenas o tubo de madeira castanha os separava e o fino tecido preto raiado a cinzento claro os protegia. Rua abaixo, calados de inicio, ao longe foram desaparecendo numa dupla silhueta que se fundia na noite, não sem antes o último lampião mostrar as suas mãos entrelaçadas.

PL

 

06
Jan18

A neve, a sua terra e eu

Paulo L

A beleza inóspita da nevosa região do norte da costa oeste do Japão é o improvável cenário onde mais uma história de amor profundo e impossível ocorre, contada pelo punho poético da escrita de Kabawata.

Terra de Neve é, por isso, para ser lido. Já habituado à sua escrita, após Chá e Amor e Kyoto, continuo fascinado pela beleza descrita duma região longínqua e fria, onde o branco high-key fotográfico sombreado a neblina inunda o meu imaginário, onde vejo passar ao longe o contrastado colorido dos quimonos das gueixas, cujas faces se perdem na brancura da paisagem. O pormenor descritivo obriga a uma leitura cuidada, detendo-se em pequenos detalhes, que o leitor menos atento pode deixar escapar, mas que preenchem a narrativa harmoniosamente, qual detalhe musical, que por trás da melodia principal enche de sonoridade o texto. Sem nos esquecermos do local e da época, o que facilmente acontece porque Kawabata nos transporta a cada parágrafo, vamos apreciando a cultura, a tradição e o estilo de vida do interior montanhoso e, para muitos, inacessível. Transporta-nos com igual beleza para o coração duma jovem gueixa e para o seu amor impossível. Transporta-nos para uma complexa rede de sentimentos entre o impetuoso temperamento da gueixa e a contrastante serenidade do visitante. Transporta-nos também para a música de Gustav Mahler e para a sua Sinfonia nº 5. Podemos comparar a mistura de sentimentos ao convívio do alegre e do trágico soberbamente expostos nesta sinfonia. Ler os momentos mais íntimos ao som do adagietto e contrastando o 5º andamento com a deliciada descrição do incêndio no armazém dos casulos. O inicio da sinfonia (1º andamento) apresenta-nos a fria Terra de Neve, o inóspito clima e o jovem doente. E a completa modificação da transição para o segundo andamento encorpa a felicidade da gueixa com o regresso do seu visitante.

E numa tarde fria, onde Mahler e Kawabata se encontram, a conversa temperada com Pêra-Grave Reserva 2012 foi evoluindo num tom sereno.

23
Dez17

Música, apenas.

Paulo L

Chegaram as apetecidas duas horas de sossego, livres de qualquer actividade laboral ou de preparação da festividade natalícia, pelo que me sentei no sofá da sala, já gasto mas igualmente confortável, para ouvir um pouco do saxofone de Branford Marsalis. Desta vez optei por Songs of Mirth and Melancholy, com a participação de Joey Calderazzo. As peças sucedem-se numa alternância de emoções e o saxofone e o piano vão-se preenchendo e encaixando. Repousar ao som de The Bard Lachrymose e deliciar-me com o som de La Valse Kendall. Fechei os olhos e apreciei o momento. Deixei a música preencher a sala, vazia de tudo. Foi um momento meu. Foi o momento meu e da música. Marsalis e Calderazzo tocavam na minha sala e faziam-no para mim. Terminei com Bri’s Dance, num registo mais alegre onde o piano se vai desenvolvendo deixando a improvisação do saxofone entrar em contraponto. Ao longo do álbum vamos apreciando a subtileza melódica do saxofone soprano sobre a harmonia estruturada do piano, em alternâncias fabulosamente conseguidas e solos soberbos.

Este álbum é já de 2011, mas a sua sonoridade é intemporal. Foram os meus 50 minutos despojados de tudo e entregues à música.

15
Dez17

Gostava que o mar...

Paulo L

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 PL 

 

 

Gostava que o mar 

Me levasse para longe,

Onde não possa estar ao pé de ti.

Onde o luar não se visse,

Onde o coração chorasse por ti.

Onde os pássaros não cantassem,

Onde as árvores não florissem.

Onde a primavera não nascesse,

Onde as flores não abrissem.

 

Gostava que o mar

Me levasse para longe,

Me arrastasse para distante de ti.

Onde o sol não fosse de ouro,

Onde a terra não se pudesse abrir.

Onde os olhos não vissem tão longe,

Onde o meu pensamento não chegasse a ti.

 

Gostava que o mar

Me levasse para longe,

Onde não queira ouvir falar de ti.

Onde a música não tocasse,

Onde os sons não se ouvissem.

Onde a poesia não se dissesse

Onde o amor não existisse.

 

Gostava que o mar

Me levasse para longe,

Tão longe que fosse

Mesmo ao pé de ti.

PL

 

 

 

13
Dez17

Quem vê capas não vê corações

Paulo L

Aqui há uns dias e por causa de mais um dos habituais jantares de Natal, onde a solene troca de prendas, cada vez de mais baixo valor, que a conjectura actual assim obriga, associada à minha completa ineficácia nas suas escolhas, optei por comprar um livro. Procurei nas edições de bolso, onde se encontram algumas boas opções a preços mais compatíveis com o valor estipulado para a prenda em questão. A posterior distribuição por sorteio dificultava a escolha. Obrigava que o livro se adequasse a um leque diferente de pessoas, desde os claramente desinteressados pela literatura até aos assíduos leitores. Optei por Paulo Coelho, um autor de fácil leitura, com uma muito boa fluência de escrita. Escolhi Brida. Um livro sobre magia. Sobre a Tradição do Sol e a Tradição da Lua. A natureza, a sabedoria, o tempo. O bem e o mal. Mas é também um livro de paixões, de procura, do outro eu como alma gémea. Dos sete livros que li de Paulo Coelho recomendo três. Brida, o que mais me preencheu, seguido de O Alquimista e de O Diário de um Mago.

Não trago nenhuma novidade com estes livros, Paulo Coelho é um dos autores mais vendidos. Não digo nada já não dito sobre estes livros. Não acrescento muito sobre a qualidade descritiva do autor. Aconselho a leitura a quem ainda não os leu, eventualmente algumas releituras a quem, por ventura, não ficou muito satisfeito na primeira passagem. Mas há um propósito obscuro, já que estamos a falar de algum misticismo, ao trazer aqui Brida. A edição de bolso que encontrei tem uma capa que me fez pensar. É que se não considerasse este o melhor livro que li de Coelho, não o teria comprado para oferecer. Poucas foram as oportunidades de procurar por edições melhores, teria que ser um tiro certeiro porque o tempo escasseava. Peguei no livro, pousei o livro. Procurei outros, encontrei O Alquimista. Peguei nele. Pousei-o. Gostei mais de Brida. Mas aquela capa... Já aqui falei da importância das capas, da importância do tipo de letra, da importância do espaçamento entre as linhas. Se a montra não chama a atenção, não entramos na loja. Pode chamar a atenção por diversos motivos, pela cor, pela fotografia, pela sobriedade, pelo design... Pode o interior ser mau, mas come-se com os olhos. Agora se o frontispício não chama a atenção, já não se folheia. Este Brida que ofereci envergonhou-me ao ponto de sentir necessidade de justificar a escolha do livro. Infelizmente. No fundo, hoje, a propósito duma má capa falo de um bom livro e a propósito dum bom livro chamo a atenção para o prejuízo duma má capa.

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