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Lata de Conversas

Lata de Conversas

28
Mar21

Contra mim falo

Paulo L

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Contra mim falo.  Sendo um cidadão comum, igual a tantos outros, sem predicados excepcionais ou algo porque ser reconhecido. Inconscientemente, porque conscientemente estou-me a borrifar, talvez pretenda ter aqui os meus 15 minutos de fama. Numa sociedade onde quase todos querem ser famosos, o protagonismo vai sendo para os que em nada o deveriam ser. A futilidade ocupou os lugares e monopolizou audiências. Assusta-me assistir ao canal publico de televisão a horas sensatas do dia, assusta-me ainda mais assistir aos canais abertos a horas sensatas do dia. Assustam-me as guerras de audiências baseadas no Big Brother. Hoje em dia é politicamente incorreto falar-se de elite cultural, apesar de existir. Mantém-se, por razões políticas, ideológicas e sociais, afastada das luzes dos média, silenciada nos horários nobres. A clara incompetência reinante só sobrevive à custa da ignorância, agora dita aliteracia e outrora iliteracia, duma franja votante cujo único objetivo é a manutenção da subsidiocracia. Mas estou a fugir do tema. A Rita Pereira, por exemplo, tem 1,5 M de seguidores no Instagram. Seguem o quê? As luzes do estádio do Nacional da Madeira? Ou seguem uma geração amorangada que não evoluiu? Mas que proliferou. Este é apenas um de muitos exemplos. As redes sociais estão pejadas deles. O Alta definição teve convidados fabulosos, entrevistas memoráveis. Está reduzido a atores de novelas que falam da sua vida pessoal, das suas relações familiares e dos seus traumas de infância. Por favor, poupem-me a isso, aqueles olhos já nada têm para dizer. Tragam algo de novo, partilhem cultura, partilhem ciência, partilhem conteúdo. Há tanta gente interessante em todas as áreas. Um apelo, deixem o jornalixo e façam o verdadeiro jornalismo. Esqueçam as caras larocas e promovam as mentes brilhantes.  Há-as em muitos lados e, curiosamente, são pessoas de quem não se fala nas revistas nem nas televisões. Que trabalham quase anonimamente sendo apenas reconhecidas entre pares. E que delicia ouvi-las falar. São poemas magistralmente declamados. Enchem-nos a alma. Reservem para as vulgares futilidades apenas o pouco tempo que lhes deveria caber e mudem o paradigma da inconsciência coletiva para uma consciência proactiva do que realmente é importante.  Para ver algum programa mais elaborado e de interesse cultural sou obrigado a praticar horários incompatíveis com o descanso necessário para o laboro diário habitual. Para assistir a algum tipo de informação científica interessante espero semanas por uma ou outra série com interesse. Estou a deixar de parte os canais específicos não massificados propositadamente porque aí procura quem quer. A questão está no dar e não no procurar, está na propositada desinformação, está na ultrajante valorização do fútil e do inconsequente como doutrina a seguir. Na premiação da imagem e não do conteúdo. No estar em vez do ser. Na transformação do acessório no essencial. Foi-se perdendo a capacidade de aprender e o gostar de saber e foi-se ganhando o voyeurismo social como o leitmotiv vivencial.

Tudo isto vem a propósito do Editorial do último numero da revista Electra. Soberbamente escrito e que aconselho fervorosamente a leitura. Não transcrevo passagens do texto porque foi sempre meu propósito nunca o fazer aqui, relativamente a tudo o que vou falando, livros, musica, comentários. Foi sempre minha intenção falar nas coisas e deixar que o leitor as procure. Mas não posso estar mais de acordo com o que lá está escrito.

 

 

14
Nov20

Shostakovich e a Covid-19

Paulo L

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PL

 

 

Chove!

São lágrimas, Senhor!

Lágrimas deste planeta que sofre, deste planeta já sofrido por inúmeras agressões.

Mas agora o choro é mais forte. A humanidade sofre castrada da sua essência. Mutilada daquilo que lhe é importante, do estar, do conviver. A ausência do toque. O toque é uma das necessidades básicas. Não existimos sem toque, sem troca, sem sentir o calor na nossa pele. O abraço. É tão bom o abraço! Como sinto a sua falta, como sofro por não poder abraçar, como sofro por não ser abraçado. O afecto surge de formas diferentes, de formas impessoais. Gestos, mensagens, trocas de olhares. E o abraço, Senhor? Porque nos falta o abraço? Porque o toque é caloroso, o toque é protector, o toque transmite tudo o que tem que dizer, o toque diz tudo que tem que transmitir.

A destruição pandémica do toque é a destruição do afecto. Não há um novo normal. O “novo normal”, dizem os anormais. Anseio o normal porque não há um novo normal. Somos obrigados a viver o anormal à espera do normal que vai acontecer. Pode demorar mas vai voltar. Desenganem-se os arautos do novo normal. Estes novos profetas que não sabem do que falam. Não sentem, não sabem sentir. Expressam sentimentos nas redes sociais. São despersonalizados. Preferem relações à distância, mesmo que fisicamente juntos. O telemóvel é o objecto de transição. Falam por sms e tweets. Não trocam afectos. São assexuados. Felizes? Não, tristes nas suas pobres felicidades. É uma ambivalência destruidora. Por isso chove e são lágrimas, Senhor!

Se tivesse que associar uma música à Covid-19 talvez associasse o Concerto de Piano nº 1 de Shostakovich. A ambivalência do piano com o trompete é a ambivalência de sentimentos, que tanto convergem como pouco depois se afastam. É a vontade de tocar com a necessidade de o não fazer. A leveza e doçura melódica penetra no ouvido como o suave toque que falta à pele. A alternância com os elementos dramáticos que mimetizar o sentimento humano no duro período pandémico, contudo com uma constante alegria de esperança de que tudo vai ficar bem.

 

12
Set20

O verão, os policiais e a enciclopédia do Tordo

Paulo L

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PL

 

Era verão e ia entrar de férias. Chegava a altura dos policiais, género que habitualmente reservo para este período. Nenhum motivo particular, por hábito quiçá. Uma ida à livraria tinha-me desgraçado as finanças não fora o recatado confinamento que me manteve ausente do delicioso aroma a papel fresco por dois pares de meses. Compensado da ressaca por vários volumes no saco, não faltaram os costumeiros policiais da época. O ladrão de tatuagens de Alison Belsham e o enciclopédico A noite em que o verão acabou do João Tordo.

 

Começando pela pequena história de Belsham, sinopticamente interessante e volumetricamente pouco ameaçador, pecou por alguns percalços de tradução, particularmente nos discursos diretos, onde não revejo o vulgo cidadão com o linguajar daquela forma. A história entusiasma, surpreende no inicio, mas deixa-se ultrapassar pela leitura atenta e pelo raciocínio treinado do assíduo consumidor deste género literário que, sem dificuldade acrescida, tirará as conclusões acertadas antes do desenlace policial. Uma boa entrada, uma  vichyssoise, antevendo um bom prato principal.

 

Ignorante quanto a João Tordo apesar de na minha biblioteca já existir Ensina-me a voar sobre os telhados, fui protelando a leitura por motivos variados embora nunca sendo o livro ou o autor o principal motivo, mas o estado de espírito, ou qualquer coisa que isso signifique, que é o meu principal motor de busca.

 

As férias apelavam ao enciclopédico policial. Da mesma forma que os homens não se medem aos palmos, também os livros não se classificam à página mas a extensão da escrita ou traduz uma elevada qualidade do texto ou, a partir de páginas tantas, perde ritmo e interesse e ganha palha e lastro que de pouco servem para satisfação do leitor.

 

N’ A noite em que o verão acaboua alternância temporal aumenta a coesão narrativa dando a informação à medida que vai sendo necessária. Várias linhas de pensamento vão-se estruturando, percebendo-se que todas elas poderão levar a lado nenhum. A alternância narrativa, muito bem construída, permite envolver duas histórias concorrentes. A escolha da narrativa principal é-nos condicionada pelos acontecimentos mais macabros mas estruturalmente poderemos considerar igualmente importantes as narrativas secundarias,  considerando por um lado a história dos Walsh e por outro a de Taborda. Envolvidos por estes personagens são abordados diferentes temas relacionados com a complexidade das relações humanas. Que passam da vontade de se tornar escritor à incapacidade de continuar a produção literária. Uma forma de síndrome de Bartleby. Da adolescência à idade adulta. Da descoberta da sexualidade aos comportamentos de risco. Da relação da investigação criminal e do ministério publico com a necessidade política da obtenção de resultados. A caracterização das personagens é soberba. Quero acreditar que intencional. Do professor List ao professor Hayes, de Walsh a Pinkus, de Laura a Pedro Taborda. Deixo ao leitor a tarefa da avaliação. Apreciei particularmente a relação de Laura e Pedro. Um Pedro apaixonado a transbordar de tensão sexual e uma Laura que não permite o além da amizade. Um Taborda que varia da paixão por Laura passando pela relação ambivalente com a literatura e acabando na relação amorfa e desinteressante com a sua quotidiana existência. A não perder este enciclopédico Tordo.  

 

19
Jul20

A metáfora civilizacional

Paulo L

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PL

 

Curiosidade e grande expectativa. Foi assim com o livro de Bruno Vieira Amaral. Leitor habitual das suas crónicas, contundentes, mordazes e com um brilhante sentido de humor, o livro prometia.

Como Quadros de uma exposição de Modest Mussorgsky, escrito para homenagear um amigo pintor falecido, após ter visto a exposição, também neste conjunto de histórias aparentemente soltas se sente uma homenagem. O Bairro Amélia, não é só o Bairro Amélia. O Bairro Amélia são todos os bairros dum Portugal multicolorido e multicultural.

BVA reúne as histórias e o livro constrói-se. Uma a uma vão-se juntando na construção relacional do Bairro. De per si são apenas histórias, mas a sua conjugação, numa leitura seguida, transforma-as nas vivências quotidianas dos habitantes, com as suas vicissitudes e excentricidades, as suas ilusões e desilusões, as suas relações e separações.

Da mesma forma que Quadros de uma exposição, metaforicamente pelo piano, conta a visita duma exposição de quadros, As primeiras coisas apresentam o dia a dia de tantos bairros, superficialmente diferentes mas visceralmente iguais.

A sucessão de páginas traduz-se na complexização civilizacional do Bairro Amélia e na subsequente complexização duma sociedade pós-ultramarina num processo adaptacional e social que ainda deixa marcas, algumas já indeléveis, mas muitas ainda profundas.

Sociologicamente de uma riqueza notável. Tradutora do muito que se pode trabalhar na área e que deve ser fruto de uma análise séria, interpretativa e preventiva. Não chega falar, é fundamental perceber e actuar. Enfim, coisas cada vez mais raras num país que se quer proactivo, moderno e civilizado.

 

16
Mai20

Segunda oportunidade? Porque não ! ?

Paulo L

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Poucas coisas existem tão apetecíveis como ceder à curiosidade e regressar a autores que pouco satisfizeram da primeira vez.

É esta curiosidade que nos mata. Tentar novamente, ver se é diferente. Correr o risco. Tão típico da natureza humana correr riscos.

Há riscos e riscos. Ler um novo livro de um autor depois de não termos gostado do primeiro não é propriamente um risco muito elevado. É apenas um tempo usado, porque não quero dizer gasto, para perceber melhor  o caminho percorrido, a dinâmica, a evolução. É que a primeira vez nem sempre é como esperamos e muitas vezes é mesmo o contrário do que estávamos à espera.  Baralhando e tornando a dar. Gostamos do livro, lemos o segundo. O segundo não é tão bom. Compreendemos. Lemos o primeiro, não é bom. Condenamos o segundo? Talvez a maioria das vezes sim. Devemos fazê-lo? Talvez não. Passamos à segunda oportunidade. Acontece em tantas situações.

Foi o que decidi fazer a María Gainza. Gostei do título Hotel melancólico. Talvez porque se coaduna com o confinamento a que estamos sujeitos. Donde da varanda virada ao sol apenas poucos transeuntes, passeadores de cães e atletas nas suas formas reais ou pseudo, distantes e distanciados, alegram debilmente uma outrora movimentada rua com conversas em alto tom, risos, coscuvilhices e confrontos caninos de indisciplinados rafeiros e snobs pedigrees feéricos e desobedientes.

Não é a Avenida Niévski no seu bulício quotidiano. Como eu gostava que fosse! Como me vejo à janela grande do café olhando quem passa, imaginando as suas histórias. É a minha avenida, com as suas histórias, sem a grandiloquência que a imaginação me transporta de Gogol e da sua avenida. À minha maneira interpreto histórias, atribuo significados, invento vidas para os que passam absortos nas suas próprias. E esta melancolia duma tarde soalheira combina com o Hotel melancólico onde se fala de arte, de pessoas, de sentimentos, de realidade de ficção. Da nobreza da cópia, do estigma da falsificação. Da memória e da vida.

Com uma escrita mais criativa e menos ligada a constantes referencias e notas reais que me cansaram n’ O nervo ótico, uma narrativa mais romanesca e menos ensaísta e uma história ao jeito da autora que é também crítica de arte.

Saboreei o café na varanda da minha Niévski acompanhado por Hanne Boel e The shining of things. E fui aproveitando o sol como justificação para manter Hanne Boel comigo.

 

 

 

17
Abr20

Da Amazónia à Patagónia

Paulo L

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PL

 

Luís Sepúlveda deixou de me ser indiferente quando li o O velho que lia romances de amor. Uma história simples sobre a brutalidade humana, contada numa linguagem terna e cativante. O cenário, uma aldeia selvagem no interior da Amazónia. Uma tribo indígena. Um animal acossado. E um velho que lê romances de amor. Nada mais improvável. Nada mais bonito. Por entre as maravilhosas paisagens amazónicas. É também um livro sobre o prazer da leitura. Numa narrativa essencialmente descritiva a história surge-nos sem grandes sobressaltos literários, com uma agradável cadência, que não satura nem cansa numa leitura contínua. 

Em 2017 publiquei este pequeno texto a propósito deste grande escritor. Olhava o mar que sereno absorvia a minha atenção. Toda uma imensidão azul com pequenos raios de espuma branca sempre que uma tímida onda ousava mostrar-se lembrava-me as férias na amazónia e a viagem de barco pelo rio Negro ao encontro das águas com o rio Solimões e pelo Amazonas abaixo, com fabulosas paisagens de terra virgem e uma diversidade inimaginável de duma natureza fervilhante de vida.

Mas foi com Sepúlveda que conheci a Patagónia. Chileno de nascimento, não poderia deixar de exaltar outra das maravilhas naturais do planeta.  Vários romances  com histórias que lá se passaram mostraram-me a Patagónia na sua forma mais pura. Se Chatwin a descreveu, Sepúlveda enalteceu-a. 

Ficamos mais pobres mas a riqueza literária perdurará. 

11
Abr20

Em casa aproveitando O beco da liberdade

Paulo L

 

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PL

Uns dias por casa, por um bem maior, disponibilizam algum tempo, doutra forma impossível. Os trabalhos atrasados ganharam vida e os intervalos, um bocadinho mais longos, permitem devaneios culturais mais amiúde.

Reabilitam-se fotografias antigas, esquecidas pelos diferentes suportes informáticos. Relembram-se momentos vividos e emoções passadas.

A nostalgia musical vai dando lugar a novas descobertas. A leitura prolonga-se, descontraída, saborosa e o tempo lentamente desvanece até à urgência do regresso ao trabalho agora com dificuldades acrescidas pela necessidade de desligar do prazenteiro descanso.

Foi já neste ambiente de estranha monotonia quotidiana que peguei n’ O beco da liberdadede Laborinho Lúcio. Uma reflexão sobre o julgar, em várias vertentes do espectro humano, transmitida numa linguagem cuidada  com uma estrutura bipartida pelos períodos temporais definidos. A narrativa desenvolve-se com a cadência certa, não havendo tempos mortos nem desenvolvimentos rápidos, estando os aspectos reflexivos nas entrelinhas do componente descritivo. A vontade de absorver todo o conteúdo acelera a leitura e, sem se dar por isso, chega-se ao fim.

O último capítulo foi acompanhado por Charlie Haden e Gonzalo Rubalcaba nas suas soberbas interpretações ao vivo em Tokyo Adagio. O dialogo entre o baixo e o piano num tom moderado e num clima ameno de uma elegância singular, que perdurou tranquilo ao pousar do livro.

04
Abr20

Ellis, In his solitude

Paulo L

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PL

 

Morreu Ellis Marsalis.

O que dizer, quando tudo já foi dito!

Interprete fabuloso, foi pioneiro na transição duma forma muito clássica para um Jazz mais moderno. Não fugindo de certos conceitos mais tradicionalistas, reinventou os clássicos não se deixando influenciar por correntes paralelas e muito em voga como o Dixieland, por exemplo. Interprete, professor e influenciador, trouxe ao Jazz uma dinâmica única e trouxe ao público várias gerações de novos interpretes.

Dos seus quatro filhos músicos, Wynton e Branford são os que melhor conheço e que com regularidade ouço.  O trompete sempre enérgico de Wynton assenta numa prodigiosa improvisação, com uma forte base de blues e swing aliada a uma rigorosa mestria técnica. Branford optou por uma maior variedade de estilos, sucessivamente introduzidos chegando, tendo a música clássica ganhado um forte componente no seu universo musical. Foi com Eternal que me iniciei no seu saxofone. É com o seu concerto a solo na Grace Cathedral de São Francisco – In my solitude- que deixo a minha homenagem a Ellis Marsalis.

 

 

15
Mar20

Já que têm que ficar em casa, pelo menos aproveitem

Paulo L

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PL

 

O céu fechou-se num cinzento ainda claro e as nuvens taparam o envergonhado sol que timidamente nasceu  alegrando a madrugada.  De repente o aguaceiro bateu nas janelas parcialmente abertas e múltiplas gotas de água repousam agora nos parapeitos. Trocamos olhares de desconfiança. Eu não as esperava e elas não sabem qual será a sua sorte. Cria-se alguma tensão entre nós até os meus olhos se tornarem sorridentes. Já ia ficar em casa e ia! Porque não ficarem essas gotinhas de água a fazerem-me alguma companhia?

 

Feels like home e Inger Marie Gundersen também me estão a fazer companhia. Um álbum traquilo de Jazz Ballads, uma voz doce, muito doce. Uma composição melódica fantástica. A ordenação com sentido. Para ouvir e voltar a ouvir e voltar a ouvir e voltar a ouvir.

 

Terminei de ler O envangelho das enguias. Desapontou-me. Um romance ensaio que, em minha opinião, não resultou. Como ensaio, muito bom. Adquiri um conjunto de conhecimentos fabuloso, percebi a complexidade das enguias, adorei a descrição da atração ao longo de séculos pelos seus mistérios. As memórias  de infância com o pai, as suas vicissitudes, as suas descrições, cabiam numa ficção melhor estruturada e fora do ensaio exaustivo sobre o enigmático animal.

 

Resta-me agora escolher o parceiro ideal para completar a tríade Feels like home e Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo. Olho para a pilha de livros  que ansiosamente me aguardam. Olham para mim, quais gotas de chuva, com desconfiança, mas agora com a infinita vontade que pegue nalgum deles. A escolha é difícil. O Beco da Liberdade de Laborinho Lúcio. Mas peguei também num ensaio de José Carlos Pereira, O valor da arte. Não resisti ao seu olhar.

 

Fiquem em casa e aproveitem.

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