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Lata de Conversas

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26
Mai17

Um livro é uma expressão de afectos

Paulo L

Um livro é uma expressão de afectos. Quem escreve quer transmitir o que lhe vai na alma. De forma mais ou menos elaborada traduz um estado de espírito existente no momento da escrita. Um texto mais enfático num momento de euforia, mais dramático num período de tristeza, diferentemente adjetivado conforme a circunstância, traduz certamente a experiência narrativa do autor. Contudo, a expressão dramática expressa em cada parágrafo não é dissociativa deste estado de espírito e isto é que transforma a narrativa numa apetecível companhia. A envolvência cultural e ambiental é fundamental para o aspecto realístico da cena transmitida. Quando tento associar uma música ao acto de leitura, conjugando-a com o texto em questão, é porque me parece que combinam e que não se sobrepõe à leitura atenta mas, duma forma simbiótica e por vezes até duma forma submissa, faz sobressair os afectos expressos no texto. Isto porque estamos a dar a primazia à leitura, mas quantas vezes dou por mim completamente abstraído do texto que estou a ler e absorto na melodia que suavemente enche o espaço. Aí começo a reparar em pormenores que até então me tinham passado despercebidos, ou que até tinha reparado neles mas não me absorveram a atenção. Encontro aí uma inversão de papéis. A música sobrepôs-se ao livro porque também a música é uma expressão de afectos. Sentimo-los de forma diferente. E esta diferença reflete a forma de estarmos naquele momento. Apesar dos estímulos não serem mutuamente exclusivos, a forma de os percepcionarmos é diferente e aí sim, somos nós que eliminamos o estímulo menos favorável no momento. Como expressão artística, não tenho preferência. Mas conforme a situação, o estado de espírito, a necessidade de um estímulo cerebral e vejo-me, por vezes, a ter que optar por uma destas expressões estéticas e, muitas vezes, a terminar uma para manter a outra porque é a que me complementa nesse momento. Apesar da sua complementaridade, há períodos em que é necessário uma atenção primordial num dos géneros, com a completa exclusão do outro. E isto ocorre principalmente quando a tradução dos afectos está a ser percebida como um conjunto de diferentes sensações transmitidas pela narrativa literária e pela narrativa melódica. Aí nós conseguimos sobrepor aquela que nos é mais favorável, transformando a outra numa interferência inestética que tendemos a abolir, mais do que a ignorar. E se numa primeira fase a conseguimos ignorar, havendo um período de concomitância, com o tempo esta concomitância torna-se agressiva e desagradável, obrigando à sua completa exclusão. Isto explica o facto de por vezes gostarmos de ler e ouvir música, por vezes gostarmos de ler e por vezes gostarmos de ouvir música. Hoje, apeteceu-me simplesmente escrever.

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