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Lata de Conversas

Lata de Conversas

06
Ago17

Ter tudo e ...

Paulo L

Num intervalo de trabalho, em diálogo com um colega e fugindo dos temas mais banais, iniciamos uma conversa sobre livros. Disse-me que estava a ler Terapia. Nessa altura, já lá vão uns larguíssimos anos, não conhecia David Lodge. A curiosidade aguçou-se-me e lá fui eu comprar o livro. Depois um segundo e um terceiro para oferecer. O quarto, o quinto e o sexto também para oferecer. E pelo meio os outros romances de Lodge para me ir deliciando com a sua escrita. Talvez por ser o primeiro a ler, Terapia continua a ser o meu preferido.

Uma escrita apurada, linguisticamente fluida, cuidadosamente sarcástica, com um humor q.b. é-nos servida em episódios sucessivos da vida de Laurence Passmore. Tem tudo. Mesmo tudo para ser feliz. Mas tem também uma irritante dor no joelho e uma depressão crónica, moldada pelas suas angustias existenciais. Uma parábola sobre a crise da meia idade e a entrada na velhice, sobre as relações humanas, sobre a existência. Com Kierkegaard a complicar. O existencialismo que criou, muito fruto das suas angustias e sofrimentos, aliados a um melancolia constante, estudando as causas e as consequências das relações humanas, vem piorar toda a existência de Passmore quando, por fruto de algumas circunstâncias, toma contacto com a sua obra.

Já disse demais da história. O importante é lê-la. O importante é ler David Lodge. Deixando Terapia como primeiro prato, servirei mais à frente outras obras de Lodge, algumas muito em relação com o Verão que vivemos, como Noticias do paraíso que deixo para quando entrar de férias.

Numa aparente contradição ao existencialismo de Kierkegaard, aconselho como tema de fundo para este livro Éclairs sur l’Au-Delà … de Olivier Messiaen. O compositor, numa das suas últimas entrevistas, disse sobre esta obra “imagino-me diante de uma cortina, na escuridão, apreensivo sobre o que se encontrava além: Ressurreição, Eternidade, a outra vida” (tradução livre). Talvez Lodge não o seja assim tão profundo, talvez Terapia se coadunasse com uma obra orquestral como esta. Mas Kierkegaard sem dúvida que sim,... numa aparente contradição.

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