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Lata de Conversas

Lata de Conversas

23
Jul17

Se os livros falassem!

Paulo L

Prefiro oferecer um livro a ter que o emprestar. Tenho-lhes um cuidado religioso. Sei que deveria ser um objecto de partilha, mas para mim é um objecto de arte. Não vejo por aí os quadros andarem de casa em casa. Agora esta semana o meu Vieira da Silva vai para tua casa e o teu Noronha vem para minha. Para a semana emprestamos ao Manuel e na outra semana à Marta. O Joaquim vai-me emprestar um que tem da Paula Rego e nessa altura empresto-te o da Maluda.

Então porque o fazemos com os livros? O Joaquim trata muito bem o quadro da Paula Rego, mas dobra as lombadas todas dos livros. Além disso dobra o canto da página para marcar onde está na leitura e, nalguns livros dele, até tem anotações. A última que vi foi do telefone da Catarina. Não sei quem é a Catarina, mas pelo menos tenho o telefone dela.

Se os livros falassem com os seus leitores talvez lhes dissessem muitas coisas. “Não dobres a folha”, “Cuidado com essa lombada”, “Bolas! Outra vez o café a chegar-me às páginas.”

Mas também há quem os cuide da forma que merecem. Algumas primeiras edições em caixas de cartão ou de madeira propositadamente feitas a preceito. Os livros certamente gostam de nós. Pelo menos de alguns de nós. Imagino uma conversa noturna entre dois livros em opostas mesinhas de cabeceira.

- Olá! Como foi o teu dia hoje?

- Foi bom, obrigado. A Rita levou-me na carteira ao centro comercial. Consegui ver três lojas de roupa e duas de carteiras. Estive quase a ver uma loja de sapatos mas já não foi possível. Entretanto saí uns quinze minutos da carteira e a Rita folheou-me com aquele cuidado habitual dela. Limpou a mesa com um lenço de papel antes de me pousar e teve todo o cuidado em manter o café longe de mim. E o teu?

- O meu foi um bocado turbulento. Depois de ter sido atirado para a mochila do Pedro, fui a correr até ao autocarro. Dei umas quantas cambalhotas. Embrulhei-me nos calções de banho. Na praia ainda estive algum tempo ao sol e depois durante quase uma hora servi de almofada. Quando pensei que o Pedro ia pegar em mim para me ler um bocadinho, fui transformado em prato de um sumo de laranja e ainda levei com umas gotas. Para azar meu o sumo era bastante amargo. Finalmente abriu-me e esteve a ler uns dez minutos. O tempo de leitura foi pequeno, mas foi o suficiente para eu ficar com algumas areias que me têm magoado as páginas. Tenho uma areia aqui entre a página 122 e a 123 que me está a incomodar bastante. Não sei se vou conseguir descansar assim. Além disso fico sempre sobressaltado porque o copo de água está frequentemente à minha beira. Detesto líquidos e areias. Mas ando sempre embrulhado nelas. Não imaginas a minha viagem de regresso. Tão atribulada como a de ida, mas desta vez na companhia dos calções molhados e cheios de areia. Detesto a praia!

- A Rita ontem levou-me à praia. Mas não foi nada disso. Tratou-me com muito cuidado. Protegeu-me das areias e manteve sempre a garrafa de água longe de mim. Tenho tanta pena que ela acabe de me ler. Sinto-me muito feliz nas suas mãos.

Imagino um autor, o seu editor, o designer gráfico a verem alguns dos seus livros em circunstâncias particulares. Eu teria um ataque cardíaco se um livro meu fosse transformado em fascículos por capítulo.

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