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Lata de Conversas

Lata de Conversas

05
Mai17

Romantismo bacoco

Paulo L

Quando dissecamos um poema, três situações ocorrem. Interpretamos da mesma forma que o autor; interpretamos duma forma completamente diferente da do autor; ou dizemos que é passível de diversas interpretações. Quando escrevemos um poema, as mesmas três situações podem ocorrer. Ou o leitor interpreta aquilo que quisemos transmitir; ou interpreta uma coisa que nunca quisemos dizer; ou permitimos que tenha várias interpretações. Enquanto autor o que é que eu quero? Transmitir uma ideia, um pensamento, uma sensação? Deixar ao leitor o arbítrio da interpretação? Ou escrever qualquer coisa de forma a que cada um interprete como quiser? Há quem defenda que a arte surge na pluralidade das interpretações. E é sobre esta liberdade interpretativa, conjugada com o conceito de bom e de bonito que hoje falar. Com frequência vemos ou ouvimos algo que nos chama a atenção, que fica no ouvido, que conseguimos facilmente reproduzir e que divulgamos duma forma, como hoje se diz, viral sem muitas vezes pensarmos e percebermos o que realmente estamos a transmitir. Há já alguns anos que uma dúvida me persegue relativamente ao poema duma canção do André Sardet, Foi feitiço. Uma música romântica, reproduzida à exaustão, que eu não acredito que haja alguém que não a conheça, mas acredito que muita gente a cante, goste dela, envie às namoradas e não esmiúce aquilo que lhes está a dizer. Por favor, nunca me enviem este poema. O seu refrão, que facilmente fica no ouvido e a música que é lindíssima quando estamos distraídos, diz o seguinte:

“Eu não sei o que me aconteceu

Foi feitiço

O que é que me deu?

Pra gostar tanto assim de alguém

Como tu”

É aqui que entra a pluralidade de interpretações. A minha é pouco abonatória para a cidadã em questão. Dizer a alguém que só por feitiço, ou o que é que me deu? para gostar tanto assim, é um insulto. Não transformemos este insulto numa frase carinhosa. Expliquem-me isto. Foi feitiço. Não estou bom da cabeça. Como posso gostar tanto assim de alguém como tu? Tu, tu, tu que não tens nada que te abone, sei lá, és feia, chata. Só mesmo por feitiço.

É o romantismo bacoco de quem ouve mas não escuta, de quem olha mas não vê, de quem quer mas não sente.

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