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Lata de Conversas

Lata de Conversas

16
Jul17

Rituais de vida

Paulo L

Se não me engano, foi em 2006 que li Mentira. Andava na senda dos autores espanhóis. Talvez um bocadinho desiludido com o que por cá se ia escrevendo e querendo fazer uma pausa nos autores anglo-saxónicos, virei-me para a outra metade da península. Completamente desconhecedor fui vendo o que havia pelas livrarias. Lia os títulos, lia contracapas e badanas. Embarretei-me algumas vezes. E chegou-me Mentira de Enrique de Hériz às mãos. Um livro contado a duas vozes. Contralto e soprano. Uma voz mais velha, mais obscura e mais grave. Uma voz mais nova, mais límpida, mais aguda, talvez também mais aflita. Uma mãe, uma filha. Uma vida de enganos, de erros, de mentiras. A alternância dos capítulos é sublime, a narrativa espantosa, a história belíssima. O ritmo acelera e desacelera nas alturas próprias, as situações vão-se alternando em sucessivas sequências estruturadas na história de três gerações de uma família catalã de Barcelona. As relações humanas e a arte de serem vividas no real e na mentira, dissimuladas pelas verdades fingidas, fazendo com que tudo pareça normal e verdadeiro. O presente vai-se misturando com o passado e a necessidade da procura da verdade vai desvendando a mentira. Da mentira inicial vai chegar-se a verdade final. Uma situação equivoca inicia o repensar de toda uma existência baseada na irrealidade duma relação familiar supostamente impoluta e verdadeira, novelo que se vai desenrolando em direção às verdades ocultas que paulatinamente se vão desvendando.

Como sempre não conto a história do livro. Não dou pistas ao leitor. Não lhe tiro o prazer de ir desvendando a narrativa contada nas duas vozes, de contralto e soprano, embaladas num coro de vozes banais, que juntas embelezam e dão corpo a este concerto de dois instrumentos e orquestra.

Foi um dos melhores livros que li ao longo destes anos, estando no meu Top 5. Aconselho, recomendo. Leiam e releiam. Vale mesmo a pena perder-se neste livro.

A antítese mostrada pelas duas narrativas, que se vai esbatendo ao longo da procura da verdade, conjuga-se duma forma perfeita no contraponto do violino e da orquestra de um dos mais bonitos concertos de violino que tenho o gosto de conhecer. Uma obra que ouço com regularidade e que mantenho sempre o mesmo prazer ao ouvi-la. O Concerto para violino e orquestra em ré maior op35 de Tchaikovsky. Outra obra prima a não perder.

 

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