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Lata de Conversas

Lata de Conversas

29
Abr17

Os livros mudam o destino das pessoas

Paulo L

Mas voltemos às escolhas. Sempre que num livro há uma alusão a outro, eu interrompo a leitura e vou investigar esse outro livro. Se um escritor o referenciou é porque algo de bom há de trazer. Foi assim que descobri A casa de papel, de Carlos María Domínguez, a ler Manuel Jorge Marmelo. É um livro sobre o amor aos livros. É um livro sobre o amor à literatura. É um livro sobre o amor às bibliotecas. É um livro sobre os livros. Logo é um livro que todos deveríamos ler. Pelo menos todos nós que gostamos de folhear, que apreciamos o cheiro do papel impresso, que temos prazer em ter o livro na mão, que quando olhamos para a estante sorrimos ao ver as lombadas ao alto, encostadas umas às outras, a sorrirem também para nós, como que a dizerem obrigado por nos teres lido, por nos teres manuseado com delicadeza, por te lembrares sempre de nós e por dizeres a muita gente o quão bons nós somos. E A casa de papel é assim. Cheio de referencias a outros livros, cheio de alusões à leitura, cheio de ternura pela literatura. Vejam a passagem seguinte: “...vivia sozinho na casa da rua Cuareim e devorava quantos livros lhe chegavam às mãos juntamente com inumeráveis pacotes de pastilhas e caramelos que se espalhavam pelo chão dos quartos. O hábito dos caramelos substituía o dos cigarros, que os médicos lhe tinham proibido, e era tão viciante quanto a sua paixão pelos livros, reunidos em compridas estantes que ocupavam os quartos, do chão ao tecto, de ponta a ponta; empilhavam-se na cozinha, na casa de banho, e também no quarto de dormir. Não o original, porque daí fora desalojado, mas no sótão para onde tinha ido dormir, ao lado de uma pequena casa de banho. A parede da escada que até lá conduzia também estava carregada de livros, e a literatura francesa do século XIX velava, digamos, o seu escasso sono. A casa de banho tinha livros em todas as paredes menos na do duche, e se não se estragavam era porque deixara de tomar banho com água quente para evitar o vapor…”. Quem não fica enternecido por esta paixão? Tudo começa com o atropelamento mortal de Bluma, depois de ter saído duma livraria, onde comprou um livro de poemas de Emily Dickinson. No dia seguinte, o colega que a substituiu no trabalho, recebe um envelope sem remetente com um livro de Joseph Conrad, A Linha de Sombra, com uma dedicatória de Bluma para Bauer. E quem é Bauer? É o que vamos avidamente descobrindo ao longo do livro. Não li, ainda, A linha de sombra, mas certamente não me cativará tanto como A casa de papel. Para ler numa tarde e guardar para toda a vida.

Branford Marsalis tocou Eternal no seu saxofone, um conjunto de baladas, num tom contemplativo, com uma sensibilidade romântica, introspectiva. Ouvir The ruby and the pearl ou ouvir The lonely swan ou ouvir Eternal, por exemplo, é tirar da música uma sensação muito semelhante à que se tira de A casa de papel.

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