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Lata de Conversas

Lata de Conversas

19
Mai17

Mil palavras valem uma imagem

Paulo L

Seda não poderia ser fotografado. As sucessivas paisagens que nos vão sendo descritas não têm outra tradução que não por palavras. A esmerada escrita de Baricco, num soberbo tom descritivo, emoldurando o cenário das árduas viagens de Hervé Joncour ao oriente, um fabricante de sedas que, devido a uma peste que dizimou as plantações europeias e do norte de áfrica se viu obrigado a ir diretamente ao Japão buscar os casulos. Nenhuma imagem consegue transmitir de forma tão precisa esta beleza. A alternância de locais entre uma pequena aldeia rural francesa, fracamente industrializada e um Japão em crescimento com ideais antagónicos, onde as diferenças culturais, sociais e morais são constantemente postas à mostra. Além duma narrativa descritiva essencial na percepção paisagística e nas dificuldades reais que todo o percurso encerra, temos uma alternância com uma prosa poética, menos abundante mas igualmente bem urdida a transmitir a paixão que se vai desenvolvendo entre o jovem Hervé e uma das concubinas do negociante japonês. A contenção de palavras não traduz a contenção dos afectos. A demonstração de um amor platónico, a todo tempo ansiando-se por terreno transforma este livro numa transmissão de afectos, mais do que numa narrativa de viagens. Há um desfasamento descritivo – intuitivo, ou seja, por trás de toda a narrativa da viagem deixa-se perceber o que de mais profundo acontece no domínio dos sentimentos. Nestes muitos anos que passaram desde a minha primeira leitura do livro, vou retendo o essencial da sua história e vou transmitindo a beleza literária que me surpreendeu desde as primeiras linhas. Se há livros que gostei de oferecer, Seda foi sem dúvida um deles. Apesar dos seus dez anos de existência continua um livro para ser lido. Para mim um clássico; já falamos disto atrás.

Também como Seda, Anatol Ugorsky surpreendeu-me com a sua delicadeza ao piano. Como um subtil trabalho no frágil fio de seda, Short Stories é-nos dado como a transcrição musical dos afectos que concomitantemente vamos apreciando ao desfolhar lentamente esta ode ao amor.

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