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Lata de Conversas

Lata de Conversas

08
Mai17

Alguns meios não justificam os fins ...

Paulo L

Num tom ligeiro Andrea Camilleri escreveu a A concessão do telefone. Um livro bastante divertido. Uma história que, embora passada nos finais do século XIX, tem contornos de alguma actualidade. Filipo Genuardi solicita às entidades oficiais uma linha telefónica privada entre a sua loja e a casa do sogro. A correspondência trocada, o sem fim das burocracias, os inumeráveis intermediários e os inenarráveis imbróglios tornam este livro numa comédia de costumes ao mais alto nível. O final é delicioso. Estará algum fim menos claro por trás desta tão ansiada linha telefónica? Não estão à espera que vá contar, pois não? Como se diz agora, não quero ser um spoiler, ou seja, o indivíduo que conta o fim da história, estragando a surpresa do leitor. Há uma moda terrivelmente absurda na utilização de estrangeirismos na língua portuguesa, onde vários exemplos se poderão dar, que entram num absoluto contraditório com aquilo que se quer com a uniformização duma língua quer no seu aspecto escrito como falado. Não posso deixar de me referir ao famoso acordo ortográfico, acordo este que pretensamente pretenderia uma uniformização disforme de uma língua que se crê ser o português. Uniformização disforme porque, se por um lado quer que se haja um entendimento global daquilo que se diz e que se escreve, por outro lado permite que a grafia varie em diversas circunstâncias. Mas pior que este acordo gráfico que transforma facto em fato, ou seja, que por decreto transforma um acontecimento numa peça de roupa, é a manipulação descabida de conceitos. Quando se uniformiza um acontecimento com uma peça de vestuário, para usar o mesmo exemplo, e transformo facto em fato para ter um grafismo semelhante e fazer com que o irmão brasileiro compreenda, acredito que se continue a andar nu. Efectivamente, para o irmão brasileiro ceder a sua peça de vestuário era necessário ser-lhe pedido um terno. Ora aqui entra a matar a clássica expressão “o rei vai nu”. E vai nu literalmente porque leva um fato brasileiro e eu nunca vi ninguém vestido de acontecimentos mas, vai também simbolicamente nu porque um terno português talvez não lhe cubra mais do que um pequeno rectângulo corporal. Mas outra característica que torna o português uma língua bonita e difícil é a sua pluralidade de significado. Terno, além de uma pequena carta de um baralho, representa um conjunto de três. Mas se esquecermos o lúdico e passarmos ao romântico, terno é alguém que é carinhoso, afectuoso, meigo, sensível. E aqui está outra beleza da língua portuguesa, para expressarmos o mesmo sentimento podemos usar várias palavras. Há alguma coisa mais bonita do que isto? Encontrem esta beleza nas línguas anglo-saxónicas! Não existe. Então defendamos a língua portuguesa. Fernando pessoa dizia “A minha Pátria é a minha língua” . Façamos todos isso e isso fará de nós grandes. Continuo a defender que um povo pode perder tudo menos perder a sua língua.

E ouçam Mariza e Meu fado meu.

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