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Lata de Conversas

Lata de Conversas

24
Jun17

Vida de cão

Paulo L

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Camille Saint-Saëns compôs em 1886 Le Carnaval des Animaux, uma peça composta por 14 andamentos e dirigida a dois pianos e orquestra. Representa uma crítica ao cenário musical parisiense do final do século XIX, pelo que foi apresentada numa sessão privada e tornada publica apenas após a morte do compositor. Não obstante, tornou-se numa das suas mais conhecidas obras. Em cada um dos andamentos, excepto no Finale, há uma associação entre a voz do animal e um instrumento musical, dando características únicas e distinguíveis a cada excerto. No Finale assistimos ao desfile festivo dos animais.

Com um significado próprio por um lado, por outro tornou-se numa obra de fácil audição e muito apropriada para certos ambientes, como por exemplo em demonstrações explicadas de obras clássicas para crianças. Ouve-se bem em soalheiros dias de verão, em ambientes descontraídos.

 

 

19
Jun17

O limite das 250 páginas

Paulo L

De vez em quando passa-me pela cabeça não ler livros com mais de 250 páginas, assumindo o facto de que uma história bem contada, com bom ritmo e sem redundâncias que fazem perder a vontade de continuar a ler, cabe em 250 páginas.

Não é promessa, mas se fosse, estava constantemente a quebrá-la. O que mais uma vez aconteceu com Os luminares. Numa linguagem descritiva, a história passa-se ao longo destas quase 900 páginas, onde o presente e o passado se misturam e várias histórias se entrelaçam, chegando a um surpreendente final. A narrativa vai evoluindo a bom ritmo, aumentando a cadência ao longo do texto, aumentando a vontade de chegar ao fim rapidamente. Missão impossível, uma vez que temos que ir aproveitando os recortes descritivos dispersos na narrativa, que embelezam o texto e vão dando recortes duma Nova Zelândia do século XIX, em ascensão devido ao crescimento da exploração mineira, da corrida ao ouro e do trafico de ópio.

A descrição dos personagens vai surgindo duma forma independente até ao complexo enquadramento final, onde se começam a perceber mais a fundo as relações, alternando com descrições fora de época que ajudam na compreensão deste puzzle humano.

Histórias antigas que se entrelaçam com o presente e que desvendam atitudes, pensamentos, formas de estar e de agir. A teia vai-se fazendo e desfazendo, aumentando a curiosidade do final.

Um livro muito bem escrito, onde não se notam as 900 páginas a passar. Nota-se sim a história duma Nova Zelândia em crescimento, os problemas da imigração, as intrincadas histórias relacionadas com as minas de ouro, a prostituição muito presente, como que fazendo parte da rotina diária normal dos diferentes estratos sociais. Um thriller histórico em jeito vitoriano, onde a preciosidade literária sobressai e o gosto pela leitura é despertado.

Aliado ao espectro astrológico que vai orientando o destino das diferentes personagens, podemos contemplar este soberbo romance de Eleanor Catton ao som de António Pinho Vargas e Solo II.

18
Jun17

Como as cerejas

Paulo L

Costuma dizer-se que as conversas são como as cerejas, porque vêm umas atrás das outras, tornando difícil parar.

É um bocadinho a ideia destas conversas, que de umas se saltem para outras mantendo a inesgotabilidade dos temas. A maioria das vezes terão por fundo um livro, um texto, um poema, uma imagem uma reportagem, um conto, ou mesmo nada. Apenas a incontornável vontade de conversar. E a lata serve para se irem guardando as conversas.

A beleza das conversas está na diversidade de interlocutores, na abundância de temas e também na forma de abordagem que cada interlocutor tem para cada tema. Desde um pragmatismo monocromático assente num pensamento linear e pouco flexível, banalizando tudo o que se torne acessório para o desenvolvimento da ideia, até uma fascinante poética descritiva, adjectivando todo e qualquer pormenor e dando um colorido pluricromático, levando a que, por vezes, se perca o fim primordial do assunto em questão. A sabedoria está no conhecimento do interlocutor e na subtileza com que nos conseguimos mover ao longo deste espectro, mantendo sempre a atenção e o contraponto adequados, permitindo que a conversa flua dentro do seu ritmo próprio, com as variações adequadas, ou sem elas, levando a que não se quebrem aqueles pés finos de cereja, que as permitem sucessivamente continuar a surgir mantendo o interesse e a originalidade como se da primeira se tratasse.

Ao longo dos anos tenho-me cruzado com pessoas absolutamente fascinantes, com quem aprendo a essência e a beleza das coisas, o apreciar de pequenos momentos, o valorizar sensações quase imperceptíveis, o ver o que de importante pode surgir apenas num simples sorriso. Tenho aprendido duma forma simples mas importante a essência de muitas profissões. Tenho aprendido o mundo em todos os seus aspectos, sociais, económicos, laborais, políticos, humanísticos, místicos, eu sei lá... Tenho enriquecido com o que falo, com o que leio, com o que vejo e com o que ouço. E tenho-me cruzado com pessoas que me ensinam a não ser como elas. De toda a gente com quem me tenho cruzado, aprendo sempre alguma coisa. Esta é a essência do conhecimento, aprendermos com todos e a essência da sabedoria está em distinguir o tipo de aprendizagem a fazer.

Hoje não falei de livros nem falei de música. Falei de pessoas. De pessoas com quem gostamos estar e de pessoas com quem o estar também nos ensinou a não seguirmos os seus exemplos.

Esta é também uma conversa com lugar na Lata de Conversas, porque a Lata de Conversas é um lugar para se falar.

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 PL

17
Jun17

Só se morre duas vezes

Paulo L

Apesar de não ser, pelo menos entre os leitores portugueses, um dos mais conhecidos livros de Jorge Amado, A morte e a morte de Quincas Berro D’Água é, sem dúvida, uma obra paradigmática do estilo mais querido do autor. Um romance mordaz, numa tonalidade trágico-cómica, da realidade mais popular da Baía e da população baiana.

O desfile, quase pictórico, das diferentes personagens que se vão mostrando ao longo do desenvolvimento narrativo, cada uma com as suas vicissitudes, todas diferentes mas que acabam por convergir para um ponto comum, vão desenrolando uma meada do quotidiano baiano médio-baixo duma forma realístico-fantástica. Esta dualidade está bem presente na primeira e na segunda mortes de Quincas, o personagem principal deste romance. E principal porque tudo ocorre à sua volta. Quincas é o epicentro narrativo.

Resgatado da primeira morte e levado para uma inesquecível noitada pelos amigos da farra que pode ser vista como uma redenção de todos os pecados mas também como a realização duma pretensa última vontade, não só do defunto mas daqueles que se mostraram sempre os verdadeiros comparsas.

Um pequeno romance a não perder. De fácil leitura, ocupa não mais que uma tarde. Um bom livro para ler numa esplanada ou na praia, num dia soalheiro, com o ruído das ondas a bater nos rochedos em pano de fundo.

Continuação de boas leituras.

14
Jun17

Para se ir lendo

Paulo L

Hoje terminei a leitura do terceiro conto da Granta – Comer e Beber. Não sabendo ainda o que vem depois, estes seguem uma ordem particular, intencional ou não. Tatiana Salem Levy começa por pela primeira refeição, continuando-se por Alexandra Prado Coelho que expõe a sua juventude, passando para Richard Zimler que, numa associação de ideias, fala do fim. Segue-se a Última Ceia, mas a revista é para se ir lendo.

Tatiana S Levy levanta umas interessantes da gravidez, parto e puerpério, contrapondo a felicidade da situação com as sucessivas complicações e o medo do desconhecido, terminando na primeira refeição. Um bom inicio do tema principalmente com a surpreendente contradição final.

Alexandra Prado Coelho conta-nos a sua infância por Lisboa e a sua adolescência na praia. As suas recordações alimentares são, talvez como num grupo grande de crianças, mais dedicadas aos alimentos proibidos. Curiosa recordação. A pressão posta hoje nos cuidados alimentares, particularmente nas crianças, pode, sem dúvida, moldar o tipo de recordações que temos. Porque achamos tão apelativos os bolos e todo o tipo de guloseimas, recordando-os com saudade e tratando-os como se hoje não estivessem ao nosso alcance. Na realidade eles continuam pelos mesmos locais, só que transformamos a pueril vontade de os comermos no remorso violento de os termos comido. O avançar da idade foi-lhe esmorecendo as lembranças gastronómicas, realçando outras, com a ingenuidade da adolescência e a naturalidade da idade adulta. É curioso o facto de todas as praias serem iguais. A minha, uns quilómetros mais a norte, sofre dos mesmos pecados. As mesmas barracas listadas a azul e branco, as mesmas vendedoras de pastéis e pães de leite, as mesmas apregoadoras de bolacha americana, mas aqui mais conhecida por línguas da sogra. Até o percurso da infância à adolescência se vai repetindo ao longo das gerações.

Richard Zimler levanta-nos outras questões. Com a sua habitual sensibilidade toca em pontos delicados, ainda transversais à sociedade, com a subtileza de os introduzir a propósito duma refeição mal conseguida. No fundo, talvez o melhor de tudo, tivesse sido mesmo a própria refeição.

Enquanto esperamos pelos próximos contos, fiquemos com um bocadinho da natureza, que tive o prazer e a oportunidade de expor numa colectiva de fotografia.

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PL 

 

 

 

13
Jun17

Grotesco e belo

Paulo L

Hoje volto a Valter Hugo Mãe para falar de Desumanização. Para mim é uma masterpiece da literatura portuguesa contemporânea. Baseio-me em vários pontos. A ordem é arbitrária. A história passa-se na Islândia, um país de lagos, cascatas e geysers, campos de lava, crateras vulcânicas e glaciares. Paisagens fantásticas, campos verdejantes e baleias ao longe. E os fiordes... E as magníficas auroras boreais... E num país assim é-nos contada uma história triste. Reina a passividade, a solidão acompanhada, o passar o tempo como se o tempo não passasse. Reinam as paisagens virgens duma natureza não alterada pelo homem. Reinam as pequenas localidades separadas, muito fechadas, onde todos se conhecem mas todos são estranhos. Talvez este seja o mais depressivo livro de Mãe. A narradora, se 13 anos, gémea de uma irmã morta, culpabilizada pela mãe perturbada e protegida pelo pai. Vive os seus sofrimentos de uma forma particular.

A delicadeza com que Valter Hugo Mãe descreve o grotesco, numa linguagem sublime, poética, melancólica, onírica, com rasgos a ameaçar o fantástico. Com muitas referencias culturais, mostra que entrou bem no espírito islandês, que aprendeu a arquitectura emocional islandesa, que percebeu o que vai na alma daquele país.

É esta dualidade, esta antítese do sofrimento descrita duma forma tão bela que apetece apreciar, com uma poesia subjacente que se tira com o continuar da leitura que faz deste livro uma contradição permanente. Porquê uma história triste apetece tanto ler?

None but the lonely heart é um álbum do pianista Chris Anderson e do baixista Charlie Haden. Interpreto aqui também um contraponto entre o melódico e o harmónico. Uma beleza mais melódica do piano conjugada com uma harmonia mais melancólica do baixo. Também uma interpretação da solidão dos dois instrumentos que se cruzam em crescendo, integrando-se duma forma invulgar.

Duas coisas para se apreciarem juntas.

12
Jun17

Vontade

Paulo L

Queria dar-te um beijo

Do tamanho do Universo 

Queria dar-te um abraço

Queria escrever-te um verso

 

Queria sonhar contigo

Todos os dias acordado

Ter-te no meu colo

Ser por ti abraçado

 

Queria que os teus lábios

Doces e macios

Eternamente se colassem 

Aos meus, rudes e bravios

 

PL 

04
Jun17

Coincidências

Paulo L

Sem dúvida que a comida tem um papel importante ao longo da história da humanidade. Quando comecei com os Pecados Capitais, iniciei pela gula. Ao iniciar os Sentidos, para não ser monótono e falar do paladar, iniciei pelo olfacto e quis manter-me por aí. Não o relacionei com o paladar mas na realidade são dois sentidos completamente interligados. No entanto, não os podemos dissociar do tacto. Quando comemos algo, tendemos a perceber o seu aroma e o seu paladar, mas também a forma como o percebemos na boca, a sua consistência, a sua textura, a sua dureza, a forma como se desfaz ou não, enfim, mais um sentido a juntarmos para completamente apreciarmos o que estamos a comer.

Coincidência porque quando escrevi os textos não fazia a menor ideia que a Granta iria dedicar este último número ao Comer e beber.

Tudo pode ser feito à volta de uma mesa. Desde amenas cavaqueiras a chorudos negócios, passando simplesmente por comer. Comer é importante para a vida, mas comer é muito mais importante para viver. A socialização que uma refeição permite vai muito para além da absorção dos nutrientes necessários. A propósito destes nutrientes é muito interessante analisarmos as dietas ao longo dos tempos, as suas variações, o evoluir ou involuir dos conceitos e, em muitos casos, esquecermos um conceito fundamental da filogenia humana, o homem é um ser omnívoro. Não é carnívoro, vegetariano, vegan (acho que é assim que se diz agora), ovo-lacto-qualquer coisa, ou muitas outras variantes que são extremamente úteis para se venderem livros de receitas e de bem-estar. O bem estar é também um conceito muito relativo. Dando uns exemplos, um cerveja bem gelada numa tarde muito quente de verão dá-me um bem estar fantástico. Talvez uma boa feijoada à transmontana não o desse nesta circunstância, mas num frio e chuvoso domingo de inverno, sem dúvida que o faria. Ora o que acontece com estas novas modalidades alimentares é que são sempre iguais. Sol ou chuva, calor ou frio, os pratos vão-se repetindo numa completa ausência de sintonia com o meio ambiente. Ultimamente têm-me falado da dieta paleolítica (como não tenho facebook, algumas novidades tardam a chegar-me. Pode ser que a moda já tenha avançado). Pus-me a pensar nos reais benefícios duma dieta que remonta à idade da pedra e em que a sobrevida média das populações era de 25-30 anos. Claro que há aqui a questão estatística, como muitos alegam. A taxa de mortalidade infantil era enorme, o que fazia baixar esta média, mas na realidade, os relatos também não mostram muitos paleolíticos idosos.

Mas estou a fugir do tema a grande velocidade. É como popularmente se diz, a conversa é como as cerejas, encadeiam-se umas nas outras e é difícil parar... e lá metemos a comida ao barulho outra vez. Talvez seja melhor deixar a Granta para amanha e ir agora comer alguma coisinha, que isto de falar de comida vai abrindo o apetite. Só estou indeciso entre uma indecorosa francesinha especial, um polvo à lagareiro ou uma ou duas folhinhas de alface. É que para sobremesa vinha mesmo a calhar um genuíno pudim Abade de Priscos.

29
Mai17

Cinco sentidos – O olfacto

Paulo L

Quando iniciei a saga dos Pecados Capitais disse que ia alternando com outros temas para não monotonizar a leitura daqueles que ainda têm a paciência e o carinho de perderem tempo com isto, mas também daqueles que certamente lerão com gosto e dos muitos novos leitores que certamente terei com a divulgação do blogue. Bem, presunção e água benta cada um tem a que quer, diz o povo e com razão.

Muitos dos pecados capitais estão ligados aos sentidos e por isso, faz-me sentido, também neles falar. Se da audição tenho vindo a ser insistente ao associar música aos livros, dos outros sentidos não tenho dito grande coisa. Uma abordagem ao tacto quando manuseamos os livros; uma abordagem ao olfacto quando sentimos o cheiro a papel ainda novo dum livro acabadinho de comprar ou o cheiro a mofo bafiento dum livro há muito guardado numa arrecadação húmida. Do paladar falarei sempre através dos outros sentidos (por muito apetitosas que possam ser as imagens e por muito que tenha despertado o apetite ao falar de O clube dos anjos e de Les Dîners de Gala, ainda não me estou a ver comer algumas páginas).

Hoje iniciarei, também de forma alternada, alguns textos sobre livros que puseram à prova Os Sentidos. Aquele que primeiro me chamou a atenção, talvez até porque foi um dos primeiros livros que li na juventude e que me marcaram pela beleza descritiva que se pode fazer do horror narrativo foi O Perfume – história de um assassino. A busca do perfume ideal, considerado como a forma suprema da beleza, leva Jean-Baptiste Grenouille às piores atrocidades. O que no princípio começou por ser um dom, um olfacto absoluto, um génio perfumista, rapidamente se tornou numa obsessão mortal em que a incessante busca da suprema beleza olfactiva teve como consequência uma série de assassinatos, que se tornaram na única forma de o odor ser captado e absorvido duma forma impar.

Uma história que se inicia nos arredores mais pobres e sujos de Paris, em pleno século XVIII, passando para os bairros mais ricos da cidade, onde Grenouille vai fazendo um percurso de ama em ama até às melhores perfumarias parisienses, onde priva com a alta sociedade, até sentir numa jovem uma nova e agradável fragrância que, para guardá-la só para si, o levou ao primeiro assassinato. Após muitas venturas e desventuras, o isolamento a que se votou levou-o a perder o seu olfacto sentindo apenas o seu próprio odor. E então parte em busca dos melhores odores, tirando a vida a jovens virgens para ficar com os seus odores. E misturando todas as fragrâncias que vai desta forma recolhendo, alcança o seu objectivo, o melhor perfume de sempre. Não vou desvendar o fim do livro, vou deixar o leitor apurar os seus sentidos e percebe-lo conjugando-os.

O surrealismo onírico expresso neste livro, descrevendo duma forma maravilhosamente bela a mistura das diferentes sensações que vão do horrível ao fantástico, do belo à obsessão, da ausência de afectos à pureza, tornam este primeiro romance de Patrick Süskind num clássico.

Esta mistura de sensações leva-me a voltar a Bernardo Sassetti e ao seu álbum Ascent. Uma conjugação perfeita. Mas aqui falámos essencialmente de odores. Ponham a música a tocar ao fundo e associem um bom vinho, talvez do Douro, onde o aroma a frutos vermelhos se destaque.

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