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Lata de Conversas

Lata de Conversas

15
Dez17

Gostava que o mar...

Paulo L

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 PL 

 

 

Gostava que o mar 

Me levasse para longe,

Onde não possa estar ao pé de ti.

Onde o luar não se visse,

Onde o coração chorasse por ti.

Onde os pássaros não cantassem,

Onde as árvores não florissem.

Onde a primavera não nascesse,

Onde as flores não abrissem.

 

Gostave que o mar

Me levasse para longe,

Me arrastasse para distante de ti.

Onde o sol não fosse de ouro,

Onde a terra não se pudesse abrir.

Onde os olhos não vissem tão longe,

Onde o meu pensamento não chegasse a ti.

 

Gostave que o mar

Me levasse para longe,

Onde não queira ouvir falar de ti.

Onde a música não tocasse,

Onde os sons não se ouvissem.

Onde a poesia não se dissesse

Onde o amor não existisse.

 

Gostave que o mar

Me levasse para longe,

Tão longe que fosse

Mesmo ao pé de ti.

PL

 

 

 

13
Dez17

Quem vê capas não vê corações

Paulo L

Aqui há uns dias e por causa de mais um dos habituais jantares de Natal, onde a solene troca de prendas, cada vez de mais baixo valor, que a conjectura actual assim obriga, associada à minha completa ineficácia nas suas escolhas, optei por comprar um livro. Procurei nas edições de bolso, onde se encontram algumas boas opções a preços mais compatíveis com o valor estipulado para a prenda em questão. A posterior distribuição por sorteio dificultava a escolha. Obrigava que o livro se adequasse a um leque diferente de pessoas, desde os claramente desinteressados pela literatura até aos assíduos leitores. Optei por Paulo Coelho, um autor de fácil leitura, com uma muito boa fluência de escrita. Escolhi Brida. Um livro sobre magia. Sobre a Tradição do Sol e a Tradição da Lua. A natureza, a sabedoria, o tempo. O bem e o mal. Mas é também um livro de paixões, de procura, do outro eu como alma gémea. Dos sete livros que li de Paulo Coelho recomendo três. Brida, o que mais me preencheu, seguido de O Alquimista e de O Diário de um Mago.

Não trago nenhuma novidade com estes livros, Paulo Coelho é um dos autores mais vendidos. Não digo nada já não dito sobre estes livros. Não acrescento muito sobre a qualidade descritiva do autor. Aconselho a leitura a quem ainda não os leu, eventualmente algumas releituras a quem, por ventura, não ficou muito satisfeito na primeira passagem. Mas há um propósito obscuro, já que estamos a falar de algum misticismo, ao trazer aqui Brida. A edição de bolso que encontrei tem uma capa que me fez pensar. É que se não considerasse este o melhor livro que li de Coelho, não o teria comprado para oferecer. Poucas foram as oportunidades de procurar por edições melhores, teria que ser um tiro certeiro porque o tempo escasseava. Peguei no livro, pousei o livro. Procurei outros, encontrei O Alquimista. Peguei nele. Pousei-o. Gostei mais de Brida. Mas aquela capa... Já aqui falei da importância das capas, da importância do tipo de letra, da importância do espaçamento entre as linhas. Se a montra não chama a atenção, não entramos na loja. Pode chamar a atenção por diversos motivos, pela cor, pela fotografia, pela sobriedade, pelo design... Pode o interior ser mau, mas come-se com os olhos. Agora se o frontispício não chama a atenção, já não se folheia. Este Brida que ofereci envergonhou-me ao ponto de sentir necessidade de justificar a escolha do livro. Infelizmente. No fundo, hoje, a propósito duma má capa falo de um bom livro e a propósito dum bom livro chamo a atenção para o prejuízo duma má capa.

24
Nov17

Deixemos apenas de existir, passemos também a viver

Paulo L

Na minha rotina diária de ver as capas dos jornais e lamentando o falecimento de João Ricardo, para mim um excelente actor, não pude ficar indiferente a uma frase de António Lobo Antunes que acompanhava a notícia e que transcrevo “Ninguém sabe o que é a morte, mas não faz muita diferença porque também nunca sabemos o que é a vida”. Concordo em absoluto. A definição de vida está longe de ser consensual e o conceito não poderia ser mais lato. Explicações das mais científicas às mais filosóficas vão-se enquadrando nas formas de ser e de pensar de cada um, que as entende como um objectivo, uma forma de estar, uma tempo de passagem, sei lá, um conjunto infindável de coisas. Embora a vida seja um assunto sério, acho que há muita gente que passa por ela sem pensar muito seriamente nela. Apenas tem o trabalho de existir, não o trabalho de viver. Ao andar por cá penso muitas vezes qual será o meu papel. Que grau de investimento devo ter naquilo que convencionalmente se chamou a vida pessoal, que grau de investimento devo ter na vida laboral. E a vida espiritual? O que é isso e onde se enquadra? Reflexivamente, viver é um processo complexo. Implica conjugar uma série de factores que por vezes são inconciliáveis. Oscar Wild dizia “Há momentos em que é preciso escolher entre viver a sua própria vida plenamente, inteiramente, completamente, ou assumir a existência degradante, ignóbil e falsa que o mundo, na sua hipocrisia, nos impõe. É uma realidade difícil de se concretizar. Saber quando e como. Mas não podemos fugir a esta dualidade. É onde entra o carácter. Camus disse um dia “Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado”. Conseguimos aqui fazer a distinção entre viver e existir. Viver uma vida sem significado não passa de meramente existir. Quando vamos ler a Correspondência de Florbela Espanca encontramos que “A vida é apenas isto: um encadeamento de acasos bons e maus, encadeamento sem lógica, nem razão;...” Virgílio Ferreira também dizia que “A nossa vida é toda ela feita de acasos”. Fernando Pessoa no Livro do desassossego escreve “A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.” A vida diz respeito a cada um. Querer viver ou simplesmente existir é uma opção. Eu gosto de viver, apesar de por vezes me apetecer apenas existir. Existir é mais fácil, é mais linear, é seguir uma linha curva que se desvia dos obstáculos, que foge aos problemas, que se afasta dos confrontos, despida de convicções e vontades, vazia de conteúdos. Como dizia Simone de Beauvoir “Viver é envelhecer, nada mais”. Não. Completo desacordo. Dom Quixote viveu uma vida plena. O Cavaleiro da triste figura soube viver. Lutou contra moinhos de vento, defendeu as suas crenças, transformou as suas ilusões em realidades. Não existiu, viveu. Concordo com Bertrand Russell quando diz que “A vida é demasiado curta para nos permitir interessar-nos por todas as coisas, mas é bom que nos interessemos por tantas quantas forem necessárias para preencher os nossos dias.” Nietzsche, Kierkegaard, Sartre, Agostinho da Silva, e muitos outros escreveram sobre a vida. Cada um com a sua forma de pensar. Todos eles viveram. Deixemos apenas de existir, passemos também a viver.

Iniciei este texto com o objectivo de falar de A morte de Ivan Ilitch de Tolstói, mas vai ficar para outro dia.

11
Nov17

Momentos

Paulo L

A vida é feita de momentos. Um dos momentos bons, que recordo com muita saudade, foi quando, entre outras e muitas coisas, me falaram de A tia Júlia e o escrevedor. Passaram uns anos mas o sentimento perdura. Ouço Fred Hersch ao piano Alone at the Vanguard enquanto vou passando em memória momentos e livros. E vou recordando A tia Júlia e o seu escrevedor. Hersch é um pianista e compositor de jazz. Ouço deliciado as suas obras e as suas improvisações sobre as obras de Monk e Blake...

O tempo vai passando. São mais as recordações que a vontade de escrever, mas A tia Júlia e o escrevedor assumem um papel preponderante. Há um realismo fantástico que se vai exacerbando com desenrolar da história. Um escritor que, para dar vida aos seus textos, vai encarnando o que escreve, ou até que encarna primeiro para escrever. E ao longo das suas histórias vai-se misturando cada vez mais com elas, ao ponto de ser ele a sua própria história. Enlouquece, confundindo enredos e personagens, mas os seus ouvintes aumentam com isso o seu apreço, adorando-o cada vez mais.

E a paixão pela tia Júlia, quase com o dobro da sua idade, do jovem protagonista de 18 anos, com quem acaba por ter uma relação amorosa. A candura e o encantamento. A luta familiar. O casamento. A amizade do jovem e do escrevedor. O desenrolar duma história achada por muitos autobiográfica, onde o real e o imaginário se confundem.

De uma leitura aparentemente fácil, que se vai complicando com o desenvolver da história, que mistura o real e o fantástico, associado a um fluir literário que aumenta a voracidade da leitura a cada capítulo que passa, esta obra de Mário Vargas Llosa é para se ir saboreando ao longo duma fria tarde de Outono, onde um encorpado tinto duriense acompanha com toda a perfeição.

22
Out17

Inevitável, o Nobel

Paulo L

Nunca li Ishiguro. Portanto, não vou falar de Ishiguro nem de nenhum dos seus livros. Não sei se é merecedor ou não do prémio, certamente é-o.

Conheço alguns autores que também o são, pelo menos na minha opinião, mas que nunca será tida em conta pela Academia Sueca. Também não conheço esses Senhores, e a quota de Senhoras; nos dias de hoje os intelectuais que, por definição, são de esquerda, esqueceram as normas gramaticais portuguesas, inventaram a igualdade de género, criaram um terceiro género e obrigaram os políticos nos seus discursos a dirigirem-se à população dizendo “portugueses e portuguesas”. Espero que nunca ganhem o Prémio Nobel da Literatura.

Já que comecei com polémicas...

Há os defensores de Saramago e os defensores de António Lobo Antunes. Há aqui uma clara vantagem para os defensores de Saramago. É que Saramago já ganhou o prémio. Mas por sorte, eu sou defensor de Lobo Antunes. Lobo Antunes lê-se e entende-se; Saramago entende-se mas não se lê.

A literatura para mim é uma comunhão entre uma ideia e um texto. Uma ideia com a qual concordamos ou não, mas um texto que não pode fugir aos cânones linguísticos dum país. Esta associação muito presente em Lobo Antunes, para mim é inexistente em Saramago. O conceito de oralidade textual também nele é difícil de se explicar. Uma vez foi-me dito que a melhor maneira de ler Saramago era em voz alta, que a sua escrita era essencialmente um discurso oral. Ao ler em voz alta ultrapassavam-se os cânones gramaticais, sobressaindo a ideia transmitida duma forma mais natural. Mais uma linguagem conceptual que um mero exercício da arte de bem escrever. Lá fui eu todo entusiasmado com o conhecimento adquirido mas rapidamente me vi ao lado do Carlos Lopes e da Rosa Mota numa maratona infindável de palavras, quase a bater o recorde mundial de apneia, até chegar ao ponto final seguinte que sentenciava a frase de meia página, dando origem ao período seguinte igualmente grande e confuso, donde também não se tirava igualmente nenhuma ideia, sendo necessário atingir o ponto final final para que a ideia se concretizasse de forma inequívoca. Tanto a Jangada de Pedra como o Ano da Morte de Ricardo Reis são bons exemplos do que acabei de dizer. Se gostei? Gostei. Gostei da ideia, não gostei do texto. Talvez os lesse outra vez, talvez os aconselhe a ler. A ideia é maravilhosamente conseguida, o texto é maravilhosamente desestruturado e confuso.

Neste contexto interpretativo de literatura surge um outro ponto conflituoso que é o da atribuição, o ano passado, do Prémio a Bob Dylan. Não quero estender-me no texto, não vá ser considerado um ensaio, e eu ainda ganhe um prémio qualquer, e por isso remeto à leitura do texto de Bruno Vieira Amaral na revista Ler intitulado “O Nobel Mais Polémico”.

24
Set17

As cores do Outono.

Paulo L

Chegou o Outono

E com ele as cores...

O verde vai-se esbatendo

O amarelo e o vermelho vão surgindo...

As folhas despegam-se das árvores

Suavemente a brisa ampara-lhes a queda...

O tapete que formam duma colorida mescla

Amacia o caminhar silencioso  

De quem se delicia 

Com as cores do Outono

PL

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 PL

15
Set17

Em Roma sê romano...

Paulo L

Seguir uma linha de escrita ou adaptar a escrita a circunstâncias diferentes são duas formas de estar na literatura. Usar uma fórmula ou usar a criatividade e a capacidade expressiva.

Algum tipo de literatura adapta-se bem à fórmula. É o caso de Dan Brown. Li O código Da Vinci num ápice. Achei-o fantástico. Uma história muito bem conseguida, que desperta o interesse a cada página que passa e as surpresas subsequentes são sempre mais interessantes que as anteriores. Além disso a explicação histórica (no caso pseudo-histórica) das situações é sublime. Dan Brown consegui criar uma história de suspense baseada numa descrição histórica coerente, bem desenhada mas absolutamente desalicerçada de rigor histórico. Li o livro antes da maioria dos portugueses e antes de instalada qualquer polémica. Digo isto não por júbilo ou chico-espertice, mas apenas para introduzir o porquê de ter lido O código da Vinci. Fiz um período de férias no México, local muito apreciado por turistas americanos. No hotel em que fiquei, bem como nos hotéis circundantes e por todo lado onde passei, não havia vivalma que não estivesse a ler The Da Vinci Code. Este hegemonia despertou-me o interesse. Habitualmente cada cabeça sua sentença. Habitualmente cada um lê um livro diferente dos outros. Por coincidência haverão duas pessoas a ler o mesmo livro. Toda a gente com o mesmo livro não é habitual. A primeira coisa que fiz quando cheguei de férias foi procurar o livro. “Ainda não foi editado em Português”, ouvi em várias livrarias. Esperei 1 a 2 meses. Foi editado! Comprei e li. Fantástico. Adorei. Guardei o livro na estante. Cerca de um mês depois estoura a polémica. Não vou falar dela. Foi há uns anos, a maior parte das pessoas certamente se lembra ainda dela. Melhor publicidade para o livro não podia ter havido.

Como sabem, escrevo estes textos, como se costuma dizer, (embora não se aplique ao computador), ao correr da pena. Isto para dizer que quando comecei a escrever e escolhi este título, o meu objectivo era falar em Valter Hugo Mãe e na sua capacidade de adaptar a escrita, a narrativa e a história a um local específico, sendo que essa história não poderia passar-se noutro lado. Quando lemos Homens imprudentemente poéticos lemos o Japão, lemos a sociedade japonesa, lemos os costumes japoneses, lemos Japão em todo o seu esplendor, em toda a sua história, no peso das suas tradições. É impossível termos esta história noutro local. E o mesmo se passa quando lemos Desumanização. Não podemos por esta história no Japão. Não podemos por esta história na Suíça, na Bélgica, no Canadá ou no Bangladesh. É uma história Islandesa. E ao avaliarmos a expressão narrativa encontramos características completamente diferentes nos dois textos. Características essas que estão embriologicamente ligadas aos locais. Deixamos de ter a fórmula “mágica” de Dan Brown. Passamos a ter a classe, a mestria e a criatividade de um dos melhores autores portugueses contemporâneos.

10
Set17

O regresso de férias e a obrigatoriedade

Paulo L

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PL 

 

O regresso de férias é sempre complicado. As férias, ... são férias! Normalmente são boas e sabem a pouco. Não que o trabalho seja mau, bem pelo contrário. Mas nas férias não há obrigatoriedade. Levanto-me cedo na mesma, mas não há essa obrigatoriedade. Faço uma multiplicidade de coisas, mas sem qualquer obrigatoriedade. Gosto do trabalho mas há essa obrigatoriedade que desaparece em férias. E é esta liberdade que me faz gostar das férias. Terminei de ler um livro, li outro e iniciei um terceiro. Já falei dos dois que li. E depois, imbuído do tal espírito de desobrigatoriedade, baldei-me ao blogue. Férias da escrita. Não que nos outros dias me sinta obrigado a escrevê-lo. De forma alguma. Faço-o com um inexcedível prazer. Mas rotinizou-se e, como tal, tornou-se numa espécie de trabalho, dando uma sensação, se bem que falsa, de obrigatoriedade. O final de férias retirou esta pequena obrigação de escrever e exacerbou a preguiça. O sofá, a esplanada, os passeios à beira mar, uma centena de fotografias... enfim, um conjunto de coisas mais propícias neste ansiado período e umas férias ao blogue. Há quem diga que o trabalho é apenas uma forma ocupar o tempo para que as férias cheguem mais depressa. Um pensamento a considerar. As férias são uma espécie de niilismo existencial.

Retomado o trabalho, já com uma semana em cima e com o pensamento nas férias seguintes, chega também a altura da rotina que se sobrepõe a qualquer tentativa de a contrariar. Se o homem é um animal de hábitos, não sei. Mas a rotina diária transformou-se numa coisa essencial para o bem-estar individual. Quebrar rotinas é aconselhado, mas nada é mais difícil. Muitas vezes o quebrar rotinas não é mais do que adquirir novas rotinas. Vamos ver que mudanças me esperam, que novas rotinas vou adquirir para transformar este tempo de espera das próximas férias num aprazível período de trabalho.

27
Ago17

Livros, ... sempre os livros

Paulo L

Se bem que não de um brilhantismo literário e com uma prosa narrativa pouco elaborada, este livro é de uma beleza temática e emocional supremas. As histórias que se cruzam, bem imaginadas, mostram-nos uma extremosa sensibilidade dos seus protagonistas. Histórias improváveis de gente improvável. Os seus protagonistas não podiam ser mais comuns e as suas histórias não podiam ser mais extraordinárias. O livro leva-nos por um caminho que eu não esperava. Ao começar a ler, talvez muito influenciado pela descrição da badana, contava com um desenvolvimento completamente diferente. Não melhor, não pior, simplesmente diferente. Fiquei agradavelmente surpreendido com este fio narrativo, onde fui encontrando sucessivas surpresas ao longo da viagem. Estou a falar de O leitor do comboio de Jean-Paul Didierlaurent. Lê-se de uma golfada, até porque o livro assim o pede. Não descansamos sem perceber o que vem depois. E o que vem depois é igualmente surpreendente. Quatro ou cinco histórias que se cruzam no mais belo da sua essência. O amor pelos outros, o amor pelos livros. Mais um livro que vale a pena ler. Mais um livro que enriquece. Mais um livro que nos surpreende.

 

23
Ago17

Muito bom, sem dúvida!

Paulo L

Após ter lido uma entrevista com John Banville, fiquei curioso para conhecer a sua obra. Como por magia, A guitarra azul caiu-me nas mãos cerca de um mês depois.

Escrito numa linguagem doce, metodicamente calculada e de uma elegância primorosa. Cheio de comparações fantásticas e inusitadas acrescentando uma beleza descritiva á narração e aprimorado pelas constantes regressões temporais que dão corpo à história, este livro foi dos melhores que li nos últimos tempos. Uma história que se crê diferente daquela que vai surgindo e que leva o leitor a um final inesperado. Apesar de uma história banal, a escrita de Banville transforma-a numa apetecível narrativa, que cria no leitor uma sofreguidão de leitura. Não descansei enquanto não terminei de o ler e, apesar da conclusão narrativa poder ser facilmente perceptível, a forma como a história é contada, pela voz do seu protagonista, levou-me a por outros cenários conclusivos em questão, tendo sido surpreendido com o desfecho.

Nada neste livro é deixado ao acaso. Tudo é pensado ao mais ínfimo pormenor. A cadência dos factos, intercalada com a explicação numa forma temporal regressiva, que surge nos momentos exatos, não revelando antecipadamente os acontecimentos. E apesar destas interpolações temporais, o fio narrativo não se perde. Muito pelo contrário. Ganha força, maturação. Dá-se em preenchimento da história sem haver um acrescentar de lugares comuns ou texto para encher.

A delicadeza da escrita coaduna-se, a meu ver, com a delicadeza sonora do saxofone de Branford Marsalis em Eternal. Já falei deste álbum, mas pela sua beleza melódica e interpretativa, gostava de falar aqui nele outra vez. Um álbum para continuar a ouvir e apreciar, de olhos fechados, após terminar a leitura.

Um dueto a não perder. Guitarra azul e o saxofone de Marsalis.

 

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