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Lata de Conversas

Lata de Conversas

19
Ago17

Dia mundial da fotografia

Paulo L

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PL

 

Não gostava de deixar passar o Dia Mundial da Fotografia, que é uma das minhas áreas de interesse e uma arte fabulosa, muitas das vezes negligenciada e considerada menor, quando comparada com outras artes como a pintura, a literatura ou a música.

Desde a aquisição da imagem, passando pela revelação, impressão e mais recentemente por um pós-processamento digital, a arte fotográfica tem evoluído duma forma absolutamente espantosa, mas ao mesmo tempo tem mantido ao mais alto nível a arte produzida desde os seus primórdios. Um exemplo é a exposição de Gerard Castello-Lopes patente no Porto.

Mas não queria dar enfâse a alguns fotógrafos, esquecendo-me de outros igualmente importantes na história da fotografia, quer passada quer recente, tanto nacional como internacional e por isso não nomearei nenhum, nem me referirei a nenhum livro em particular.

Peço apenas ao leitor que se lembre da fotografia, que a considere uma arte maior, juntamente com todas as outras e que, sempre que possa, não perca as exposições fotográficas e sempre que pegue nalgum livro para ocupar o seu tempo, que considere também um livro de fotografia.

 

17
Ago17

Para as férias... num tom ligeiro

Paulo L

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 PL 

 

 

Luís Sepúlveda deixou de me ser indiferente quando li o O velho que lia romances de amor. Uma história simples sobre a brutalidade humana, contada numa linguagem terna e cativante. O cenário, uma aldeia selvagem no interior da Amazónia. Uma tribo indígena. Um animal acossado. E um velho que lê romances de amor. Nada mais improvável. Nada mais bonito. Por entre as maravilhosas paisagens amazónicas. É também um livro sobre o prazer da leitura. Numa narrativa essencialmente descritiva a história surge-nos sem grandes sobressaltos literários, com uma agradável cadência, que não satura nem cansa numa leitura contínua. Vale a pena tirar os olhos do mar por um par de horas e pousá-los descontraidamente no livro, deixando-nos absorver por este conto de selva, numa envolvência de praia.

12
Ago17

O prometido ...

Paulo L

Conforme tinha prometido no post anterior, como entrei de férias, vou abordar Notícias do paraíso, também de David Lodge.

Uma crítica apurada baseada em estereótipos sócio-culturais é feita através dum grupo de turistas britânicos que parte em viagem organizada para o Havai. Mais uma brilhante sátira à sociedade, uma comédia de costumes muito bem elaborada, com uma escrita de fácil leitura, com um entrosamento muito bem feito entre as diferentes personagens, vivências e expectativas. A diversidade do grupo e os diferentes objectivos da viagem são-nos mostrados nos primeiros capítulos, ficando o resto do livro para uma sucessão de acontecimentos inusitados, rodeados de algumas tragédias à mistura, transformando o paraíso num cenário de inesperadas contradições.

O humor sublime de Lodge perdura ao longo do texto, mostrando-nos algumas (ir)realidades quotidianas, muitas das quais algumas vezes nos revemos sem darmos por isso.

Um bom livro para se ler nas férias, com o mar ao fundo, abstraindo-se do barulho envolvente da praia.

 

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06
Ago17

Ter tudo e ...

Paulo L

Num intervalo de trabalho, em diálogo com um colega e fugindo dos temas mais banais, iniciamos uma conversa sobre livros. Disse-me que estava a ler Terapia. Nessa altura, já lá vão uns larguíssimos anos, não conhecia David Lodge. A curiosidade aguçou-se-me e lá fui eu comprar o livro. Depois um segundo e um terceiro para oferecer. O quarto, o quinto e o sexto também para oferecer. E pelo meio os outros romances de Lodge para me ir deliciando com a sua escrita. Talvez por ser o primeiro a ler, Terapia continua a ser o meu preferido.

Uma escrita apurada, linguisticamente fluida, cuidadosamente sarcástica, com um humor q.b. é-nos servida em episódios sucessivos da vida de Laurence Passmore. Tem tudo. Mesmo tudo para ser feliz. Mas tem também uma irritante dor no joelho e uma depressão crónica, moldada pelas suas angustias existenciais. Uma parábola sobre a crise da meia idade e a entrada na velhice, sobre as relações humanas, sobre a existência. Com Kierkegaard a complicar. O existencialismo que criou, muito fruto das suas angustias e sofrimentos, aliados a um melancolia constante, estudando as causas e as consequências das relações humanas, vem piorar toda a existência de Passmore quando, por fruto de algumas circunstâncias, toma contacto com a sua obra.

Já disse demais da história. O importante é lê-la. O importante é ler David Lodge. Deixando Terapia como primeiro prato, servirei mais à frente outras obras de Lodge, algumas muito em relação com o Verão que vivemos, como Noticias do paraíso que deixo para quando entrar de férias.

Numa aparente contradição ao existencialismo de Kierkegaard, aconselho como tema de fundo para este livro Éclairs sur l’Au-Delà … de Olivier Messiaen. O compositor, numa das suas últimas entrevistas, disse sobre esta obra “imagino-me diante de uma cortina, na escuridão, apreensivo sobre o que se encontrava além: Ressurreição, Eternidade, a outra vida” (tradução livre). Talvez Lodge não o seja assim tão profundo, talvez Terapia se coadunasse com uma obra orquestral como esta. Mas Kierkegaard sem dúvida que sim,... numa aparente contradição.

05
Ago17

Fim ... mas não é o fim !

Paulo L

Fernanda Torres estreou-se no romance com Fim. O chegar ao fim, revivido de várias formas, de cinco amigos cariocas, cada um com as suas particularidades e peculiaridades é-nos exposto numa linguagem simples mas não ligeira, revelando a complexidade das vidas ao longo dos anos. Com passagens que vão do humor ao drama, o livro revela todo um conjunto de sentimentos e vivências numa corrida contra o tempo, contra as amarguras, contra o fim. Mesmo nas épocas gloriosas o conjunto não se torna homogéneo e a interseção constante da conflitualidade quotidiana está sempre presente. Um texto por vezes sarcástico mostrando os costumes de um Rio de Janeiro já ido, ultrapassado em muito por uma modernidade cultural muito diferente. O desgaste físico traduz também um desgaste civilizacional numa visão mais abrangente, sendo os cinco cavaleiros do apocalipse uma verdadeira metáfora da condição humana.

Alicerçado num argumento muito bom, o desenvolvimento do tema não é dos melhores. A caricatura social podia ser melhor aproveitada, servida por uma escrita mais imaginativa, não tão presa a lugares-comuns e a frivolidades do dia-a-dia, mas alavancada numa consciência moral mais elevada, sem necessidade de recurso ao que de mais baixo por vezes a vida traz. Li porque gostei do argumento, não foi uma perda de tempo, mas não foi uma das leituras mais agradáveis. Não ponho na lista de releitura, mas não deito fora. Alguma coisa sempre fica, se não mais, pelo menos um primeiro romance.

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30
Jul17

Ligações imperfeitas... ou mais que perfeitas

Paulo L

Por vezes sentimo-nos na obrigação de continuar alguma coisa que começamos, mesmo que a vontade ou a inspiração nos digam o contrário. Não é este o caso do meu blogue e muito menos será o de Nuno Camarneiro quando escreveu Se eu fosse chão. Depois de ler No meu peito não cabem pássaros e com Debaixo de algum céu em lista de espera, tinha uma expectativa diferente. Um argumento que me pareceu interessante levou-me a dar-lhe a primazia, não mantendo a ordem cronológica. Soube-me a pouco e mal. Uma pobreza narrativa numa história assente em episódios isolados, mais parece um livro de contos que um romance. Aceito o desacordo dos leitores (o autor não creio que se preocupe em ler o meu blogue ), apenas dou a minha opinião. Raramente transcrevi alguma passagem dos livros que falo. São para ser lidas em continuo e não deslocadas, e fora do contexto podem ter interpretações completamente diferentes daquela que foi o objectivo do autor. Não sou muito adepto da multiplicidade interpretativa duma obra de arte. É uma esquizofrenia artística. Olhamos e vemos coisas diferentes. Confrontamos o autor e a ele nunca lhe passou pela cabeça a quantidade de coisas que inferimos da sua obra. Vem-me à cabeça o sapato de tachos e o candeeiro de tampões da Joana Vasconcelos. É arte... enfim! Mas hoje pareceu-me que uma passagem de Camarneiro traduz aquilo que quero dizer. “A literatura é a mais horrenda das artes, porque é feita da mesma matéria com que falamos e nos enganamos a nós e aos outros.” Contudo parto com o mesmo entusiasmo para o Prémio Leya de 2012. Vamos ver quando o tempo me permite a sua leitura.

Baseado neste conjunto de microficções (expressão que li a propósito noutro blogue) aconselho a leitura deste livro ao som de Quadros de uma exposição de Modest Mussorgsky. São músicas compostas tendo por base dez quadros de Viktor Hartmann expostos numa galeria em São Petersburgo. Peças soltas, unidas pela mesma melodia, tal como as histórias deste livro ligadas pela sua base comum, o hotel.

23
Jul17

Se os livros falassem!

Paulo L

Prefiro oferecer um livro a ter que o emprestar. Tenho-lhes um cuidado religioso. Sei que deveria ser um objecto de partilha, mas para mim é um objecto de arte. Não vejo por aí os quadros andarem de casa em casa. Agora esta semana o meu Vieira da Silva vai para tua casa e o teu Noronha vem para minha. Para a semana emprestamos ao Manuel e na outra semana à Marta. O Joaquim vai-me emprestar um que tem da Paula Rego e nessa altura empresto-te o da Maluda.

Então porque o fazemos com os livros? O Joaquim trata muito bem o quadro da Paula Rego, mas dobra as lombadas todas dos livros. Além disso dobra o canto da página para marcar onde está na leitura e, nalguns livros dele, até tem anotações. A última que vi foi do telefone da Catarina. Não sei quem é a Catarina, mas pelo menos tenho o telefone dela.

Se os livros falassem com os seus leitores talvez lhes dissessem muitas coisas. “Não dobres a folha”, “Cuidado com essa lombada”, “Bolas! Outra vez o café a chegar-me às páginas.”

Mas também há quem os cuide da forma que merecem. Algumas primeiras edições em caixas de cartão ou de madeira propositadamente feitas a preceito. Os livros certamente gostam de nós. Pelo menos de alguns de nós. Imagino uma conversa noturna entre dois livros em opostas mesinhas de cabeceira.

- Olá! Como foi o teu dia hoje?

- Foi bom, obrigado. A Rita levou-me na carteira ao centro comercial. Consegui ver três lojas de roupa e duas de carteiras. Estive quase a ver uma loja de sapatos mas já não foi possível. Entretanto saí uns quinze minutos da carteira e a Rita folheou-me com aquele cuidado habitual dela. Limpou a mesa com um lenço de papel antes de me pousar e teve todo o cuidado em manter o café longe de mim. E o teu?

- O meu foi um bocado turbulento. Depois de ter sido atirado para a mochila do Pedro, fui a correr até ao autocarro. Dei umas quantas cambalhotas. Embrulhei-me nos calções de banho. Na praia ainda estive algum tempo ao sol e depois durante quase uma hora servi de almofada. Quando pensei que o Pedro ia pegar em mim para me ler um bocadinho, fui transformado em prato de um sumo de laranja e ainda levei com umas gotas. Para azar meu o sumo era bastante amargo. Finalmente abriu-me e esteve a ler uns dez minutos. O tempo de leitura foi pequeno, mas foi o suficiente para eu ficar com algumas areias que me têm magoado as páginas. Tenho uma areia aqui entre a página 122 e a 123 que me está a incomodar bastante. Não sei se vou conseguir descansar assim. Além disso fico sempre sobressaltado porque o copo de água está frequentemente à minha beira. Detesto líquidos e areias. Mas ando sempre embrulhado nelas. Não imaginas a minha viagem de regresso. Tão atribulada como a de ida, mas desta vez na companhia dos calções molhados e cheios de areia. Detesto a praia!

- A Rita ontem levou-me à praia. Mas não foi nada disso. Tratou-me com muito cuidado. Protegeu-me das areias e manteve sempre a garrafa de água longe de mim. Tenho tanta pena que ela acabe de me ler. Sinto-me muito feliz nas suas mãos.

Imagino um autor, o seu editor, o designer gráfico a verem alguns dos seus livros em circunstâncias particulares. Eu teria um ataque cardíaco se um livro meu fosse transformado em fascículos por capítulo.

22
Jul17

A máquina de fazer...

Paulo L

Há coisas que se adquirem no berço, outras ao longo a vida e outras nunca se chegam a adquirir. Talento nasce com as pessoas. Ou se tem ou nunca se terá. Podemos desenvolvê-lo, mas ele tem que lá estar.

 

É o que acontece com os escritores. Uns são naturalmente dotados, lemos com prazer, percebemos que vale a pena. Desenvolvem as suas capacidades inatas. Outros!...

Depois fazem Cursos de Escrita Criativa. Pode ser que dê. Ou seja, em vez de se aprender a escrever em português, aprende-se criatividade. Vamos agora “à escola” aprender a mobilar o texto, vamos reaprender todas aquelas figuras de estilo que aprendemos no secundário e que esquecemos fruto da sua desnecessária utilização. Paráfrases, hipérboles, metáforas, eufemismos, metonímias e por aí fora.

 

Saramago provavelmente nunca fez um curso de escrita criativa. Tinha uma ideia e transmitia-a conforme sabia ser a melhor forma. Confesso que nunca fui fã da sua forma de escrever, para conseguir ler com satisfação tinha que me abstrair completamente da forma e concentrar-me apenas no conteúdo. Uma amiga professora de Português disse-me uma vez que a melhor forma de ler Saramago era em voz alta, uma vez que ele privilegiava o discurso oral em relação à arte de escrever. Fiquei sem fôlego ao tentar ler uma frase apenas com mínimas pausas nas vírgulas. Continuei a concentrar-me na ideia esquecendo a escrita. Lá fui lendo uma meia dúzia deles.

 

Por outro lado há aqueles livros muito bem mobilados, com uma história engraçada, mas não passam disso. O autor contou um conto mas não acrescentou um ponto. Lê-se nas férias, na praia entre dois mergulhos, entremeia-se com conversa de circunstância, fala-se das novas aquisições futebolísticas, lê-se mais umas páginas e comentam-se os atributos da boazona do guarda-sol ao lado. Pelo meio mais um ou outro mergulho que o sol vai apertando e procura-se a barraca dos gelados.

 

Numa entrevista a José Rodrigues dos Santos fiquei com a ideia que tinha uma máquina de fazer livros. Uma máquina de sucesso. Vende muito. Lembrei-me logo de Valter Hugo Mãe e da Máquina de fazer espanhóis. Só pela analogia do nome. Na minha terra era costume dizer-se: “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”. Não generalizemos quanto aos espanhóis. Quanto à máquina...

 

Mas o verdadeiro desastre vêm com as chamadas “figuras públicas” (sabe-se lá o que isso quer dizer). Escrevem livros. Desculpem, pagam para que lhes escrevam livros. E poem a fotografia na capa, vendem que se fartam. Muitas nem sabem falar, quanto mais escrever. Bem, os escritores fantasma também precisam de ganhar a vida, é certo. E assim lá vão tendo umas oportunidades. Mas poupem-nos a este sufoco.

 

Se o talento é inato, a cultura é adquirida. Comemos o que nos dão, mas por favor deem-nos coisas boas. É que ao nos habituarmos ao que é bom, progressivamente vamos rejeitando o resto e de forma natural. Falaremos certamente de cultura um destes dias. Hoje o texto vai longo e não têm que me aturar.

 

 

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